WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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Perfil

Embora meu primeiro nome, Wittembergue, tenha sido escolhido em referência a Wittenberg, cidade alemã associada historicamente à Reforma Protestante e a Martinho Lutero, foi pelo meu segundo nome que a vida acabou por me apresentar ao mundo. Gosto de ser chamado de Magno. É como Magno Ribeiro que me reconhecem os familiares, os amigos, os companheiros de jornada e aqueles com quem, ao longo das décadas, construí minha trajetória profissional.

Nasci em 1965, e minhas raízes estão fincadas no agreste do Rio Grande do Norte, em Brejinho. Venho de uma família cuja história se entrelaça com a própria formação política, social e religiosa daquela região. Sou neto de José Lúcio Ribeiro, o conhecido “Coronel José Lúcio”, figura de expressiva influência política regional no período que se seguiu à redemocratização brasileira, com atuação ligada aos municípios de Santo Antônio e Goianinha, e ainda, aos então distritos de Brejinho, Espírito Santo e Várzea, hoje também munícipios.

Cresci, portanto, cercado pelas histórias de um tempo em que a política do interior brasileiro se fazia muito pela força da palavra, das alianças, da propriedade da terra e das relações pessoais. Histórias sobre um homem de grande prestígio e influência eleitoral, protagonista de uma época que antecedeu a eleição de Aluízio Alves ao Governo do Rio Grande do Norte, em 1960. Não as registro aqui como reivindicação de qualquer herança de poder, mas como reconhecimento de minhas origens, porque compreender de onde viemos é também uma maneira de compreender aquilo em que nos tornamos.

Meu pai, que recebeu o mesmo nome de meu avô, seguiu caminho distinto. Foi auditor fiscal da Receita Estadual potiguar e pastor evangélico das Assembleias de Deus no Rio Grande do Norte. Assim, em minha formação familiar conviveram universos aparentemente diferentes: a memória da vida pública e política de meu avô e, na geração seguinte, o senso de dever e responsabilidade próprios do serviço público e a dimensão espiritual do ministério exercido por meu pai. Talvez tenha aprendido muito cedo, justamente nesse encontro de mundos, que a existência humana raramente cabe em uma única definição.

Aos 23 anos, deixei o Nordeste em direção ao Sul do país. O primeiro destino foi o Paraná. Mais tarde, novos caminhos me conduziram ao Rio de Janeiro, onde estou domiciliado desde 1995. A partir de 2015, minhas atividades profissionais passaram também a se concentrar na cidade de São Paulo. Minha vida acabou, assim, formando uma ponte entre geografias brasileiras muito diferentes: carrego comigo o agreste potiguar de onde vim, construí parte importante de minha vida no Paraná, Rio de Janeiro; mas foi em São Paulo que encontrei um dos principais cenários de minha atuação profissional.

Todavia, antes de qualquer currículo, há a família. Sou casado há 32 anos. Casado com a Diva, sou pai de três filhos e, com o passar dos anos, a família se ampliou com duas noras e dois netos. E a vida, que possui seus próprios modos de anunciar a continuidade, já nos reserva uma nova chegada: ou um neto ou uma neta está a caminho. Somos, portanto, uma família que já reúne três gerações ao redor da mesma mesa e que, em breve, ganhará mais um pequeno lugar nela. Há poucas imagens tão belas para representar a passagem do tempo: os filhos que um dia carregamos nos braços nos apresentam aqueles que agora chegam para renovar nossos afetos e prolongar nossa história.

Minha trajetória profissional começou em um lugar que, olhando retrospectivamente, parece ter antecipado uma das grandes paixões de minha vida: uma biblioteca pública. Iniciei minhas atividades como servidor na Biblioteca Câmara Cascudo, em Natal. Entre livros, autores e histórias, tive um dos meus primeiros contatos profissionais com esse extraordinário patrimônio que é a palavra escrita.

Posteriormente, fui contratado pelo antigo Banco Econômico, instituição que viria a sofrer intervenção do Banco Central em 1995 e cuja liquidação extrajudicial foi decretada em 1996. Talvez exista, nesses dois primeiros ambientes profissionais, uma espécie de prenúncio dos caminhos que eu percorreria nas décadas seguintes. De um lado, os livros; de outro, o sistema financeiro. De um lado, a literatura; de outro, o capital, o risco, os negócios e as garantias.

À primeira vista, são mundos distantes. Para mim, nunca foram.

Minha trajetória empresarial e profissional consolidou-se no universo financeiro e, particularmente, no segmento de estruturação de garantias, área à qual venho dedicando parte significativa de minha experiência. Atualmente, atuo como Advisor de empresa garantidora, acompanhando a evolução de um mercado que busca conferir maior solidez e previsibilidade às relações de crédito e às obrigações contratuais.

Minha especialidade concentra-se especialmente na compreensão e estruturação de garantias com lastro real, ativos vinculados e mecanismos de execução capazes de transformar uma obrigação formal em proteção patrimonial efetiva. Mais do que a emissão de instrumentos, interessa-me a arquitetura que existe por trás deles: a qualidade do lastro, a adequada alocação de riscos, a governança patrimonial e a capacidade de a garantia efetivamente responder quando dela se necessita. É um campo situado na confluência entre contratos, patrimônio, crédito e confiança, e no qual a segurança das relações econômicas depende, em grande medida, da qualidade das estruturas que sustentam os compromissos assumidos.

Curiosamente, essa ideia de confiança talvez seja também uma ponte entre minha atividade profissional e minha relação com a literatura.

Porque, paralelamente ao homem dos negócios, sempre existiu o homem que observa.

Escrevo porque observo a existência. A minha própria, naturalmente, mas também a existência daqueles que encontro pelo caminho. Minha literatura nasce muitas vezes de acontecimentos aparentemente pequenos, uma conversa, um encontro, uma ausência, uma lembrança, uma frase ouvida ao acaso, e procura neles aquilo que talvez exista de universal na experiência humana.

Interessa-me a passagem do tempo e aquilo que ela transforma em nós; os afetos que permanecem e os que mudam de lugar; a família, a amizade, a fé, as perdas, os reencontros e os recomeços. Interessa-me também essa permanente contradição humana entre aquilo que possuímos e aquilo que verdadeiramente nos pertence; entre o valor que o mundo atribui às coisas e o valor, tantas vezes imensurável, que determinadas pessoas, lembranças e sentimentos adquirem dentro de nós. É nesse território, entre o cotidiano e a reflexão, que procuro construir minha escrita.

Minha literatura nasce menos da pretensão de explicar a vida do que do desejo de compreendê-la.

Escrevo sobre o cotidiano porque é nele que, quase sempre, acontecem as grandes histórias humanas. Sobre relações, porque somos profundamente transformados por aqueles que atravessam nossa existência. Sobre sentimentos, porque por trás dos cargos, dos títulos, das realizações e das aparências permanece sempre o ser humano, complexo, imperfeito, vulnerável e extraordinariamente capaz de recomeçar.

Talvez seja justamente essa convivência entre mundos distintos que melhor explique quem sou. O menino vindo do agreste potiguar; o homem que conheceu quedas, atravessou circunstâncias que deixaram marcas e, em alguma medida, impuseram custos à sua própria dimensão de cidadão, mas que aprendeu a não fazer delas morada. Hoje, ao contemplá-las pelo retrovisor do tempo, não as ignora nem as apaga: reconhece-as como parte de um caminho já percorrido, do qual permaneceram menos as sombras dos acontecimentos do que a consciência adquirida ao atravessá-los.

Assim, pois, sou. O homem que atravessou o país; o profissional formado entre livros e instituições financeiras; o executivo que aprendeu a lidar com riscos e garantias; o escritor interessado nas incertezas da condição humana; o marido, o pai e, agora, o avô que começa a perceber o tempo não apenas pelo que passou, mas pelo que continua.

 

Perfil atualizado em 10|09|2026.