Quem sou eu?
Pergunta antiga, e ainda assim, sem resposta definitiva. Porque quem sou eu depende do tempo, do olhar, da margem de quem me lê. Posso ser muitos na definição de outrem, mas aqui, me apresento sob a minha própria perspectiva. E mesmo assim, sem pretensão de encerramento, porque sou feito de mudanças, de reinvenções, de camadas que se movem.
Assim defino-me como quem abre uma porta com cuidados, e por respeito a quem chega. Se você chegou, receba esse pouco de mim: não a versão idealizada, mas a real, aquela que fui me tornando.
Fui nomeado com o peso simbólico de um castelo: Wittembergue. Lugar onde a história registrou a tradução do Novo Testamento ao alemão por Martinho Lutero, e onde se desenharam os primeiros contornos da Reforma Protestante. Não sei se foi por essa referência ou por uma antiga afeição do meu pai à letra W, ou ambos, que recebi esse nome. Meu pai, homem querido e saudoso, talvez quisesse com ele invocar algo firme, algo que permanecesse.
Mas felizmente também me deu um segundo nome: Magno. E foi com esse que me reconheci. Foi nele que encontrei meu espelho e meu lugar. Nome que passou a ser significado de mim também, e que hoje uso como quem habita, porque Magno, pra mim, é morada. Não no sentido de abrigo dos outros, mas como lugar onde eu mesmo moro, onde me recolho, me escuto e me reconheço.
Sou Magno.
Nome próprio e adjetivo. Não no que exalta o que faço ou aparento ser, mas no modo como existo para mim mesmo: com densidade, com presença, com inteireza. Carrego em mim um coração que aprendeu a se refazer com o tempo. Já andei por tantas terras, internas, sobretudo. Já venci guerras que ninguém viu. Levei porradas e, mais de uma vez, tive que cavar trincheiras dentro do próprio peito para proteger o que havia de mais vivo. Dominei meus medos, não por heroísmo, mas porque entendi que viver exige isso: seguir mesmo tremendo...temendo.
Há uma canção que me atravessa, dessas que parecem ter sido escritas à flor da pele. Nela, o cantante diz que seu coração é um campo minado, que é preciso cuidado para pisar. Me reconheço nessa imagem, mas não como ameaça, e sim como terreno fértil. Onde dores antigas abriram espaço para florescer amor. Porque o amor que me sustenta não vem de fora: nasce de dentro, me habita, me transborda.
Já vivi seis décadas. E sigo me perguntando, não “por que”, mas “pra que”. A vida me ensinou que algumas respostas não vêm em palavras, mas em gestos, encontros, silêncios. Gosto de acreditar que minha existência, mesmo discreta, pode ser sopro no rumo de alguém, como quem ajeita as velas de um barco com o toque de um vento calmo.
E neste caminho, reconheço, com reverência e humildade, o Criador de mim. Deus, presença que me acompanha até no não dito, que me desenha por dentro com mãos invisíveis. Não sei explicar Deus, e não preciso. Basta-me senti-Lo quando, mesmo sem saber como, me coloco de pé outra vez. Ou quando, no meio do caos, ainda me lembro de agradecer. Se sou campo, é Ele quem semeia. Se sou abrigo, é porque d'Ele herdei o gesto de acolher.
Magno, portanto, é mais que nome. É minha pele por dentro. É minha forma de resistir sem endurecer. De pertencer a mim mesmo sem me fechar. E isso não significa que sou só, pelo contrário. Tenho pessoas sublimes ao meu redor, que me tocam, me moldam, me ajudam a ser quem sou. Apenas quis, aqui, traçar uma autoimagem, como quem faz um raio X de si mesmo, consciente de que cada olhar que o interpreta poderá ver camadas diferentes. E todas, talvez, verdadeiras à sua maneira. Mas há mais:
Sou homem.
Filho de um pai que já partiu, mas cuja voz ainda ecoa nos silêncios mais profundos, e de uma mãe que mora longe, mas cuja presença me alcança mesmo à distância, como brisa que atravessa o tempo. Deles vieram o Ribeiro.
Sou marido, parceiro de travessia. Caminho lado a lado de uma Diva, não apenas nos dias fáceis, mas sobretudo nos que pedem paciência, entrega e permanência.
Sou pai — e nessa condição, me esforço para oferecer porto, não regras. Ouvidos, não só palavras.
Sou avô, e nos olhos pequenos que agora me olham, reencontro a esperança de que a vida se renova quando é passada adiante com afeto.
E se Magno é o nome que me habita, nele também descubro outro sentido: Magno é quem aprendeu a ocupar espaço sem ruído, firmeza sem imposição. Sou isso: um tanto de caminho, um tanto de abrigo. Feito de presenças, ausências e continuidade. E assim sigo, não pronto, mas definido o bastante para saber onde moro em mim.