WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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Depois do Quase

 

Quase é o silêncio depois do grito,
o passo contido no meio do salto,
a palavra escrita que nunca chegou à boca,
a vida que se quis, e não se teve.

 

É a presença morna do que não arde,
o abraço frouxo que não consola,
o riso ensaiado, a alma encolhida,
o amor que teve medo de doer.

 

Quase é advérbio que sonha ser verbo, e falha.
É sonho guardado em envelope pardo,
é querer com freio,
é fé com manual de instruções.

 

Aquele que habita os domínios do quase
coleciona espectros do que poderia ter sido:
paixões que não incendiaram,
verdades que não se disseram,
voos que se olharam do chão.

 

Porque o quase não fere de uma vez,
ele corrói em silêncio,
entorpece o que clama,
abranda o que implora por gesto.

 

E no fim,
não é o erro que pesa,
nem o tombo, nem a dor,
é o vazio do que não foi sequer tentado.

 

Talvez o reverso do quase
não seja o tudo,
mas o agora.
Talvez nem tenha nome.
Mas, às vezes,
quando se atravessa o limiar do quase,
não se reconhece o que vem
porque não é retorno, nem continuação.
É algo que nunca habitou a memória,
e que até a alma, por instantes, estranha
antes de compreender que sempre foi dela.

 

Ali, onde o quase se rompe,
a existência deixa de ser espera
e se encarna.

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 05/09/2025
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