WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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Ser, Apesar

 

Não se contém o ser em fórmulas.

Nem em doutrinas, nem em dogmas.

Não há molde para o indizível,

e no entanto, seguimos

fragmentados, complexos, inteiros em contradição.

 

Toda existência carrega, no mais íntimo de si,

uma pergunta sem resposta,

um silêncio que fala mais do que qualquer palavra.

Uma dor que não se pode nomear,

uma beleza que não se pode exibir.

 

Como alguém já cantou com verdade antiga:

"cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é..."

Há nisso uma fé sem nome, que não se curva a altares,

mas se firma no espanto sereno

de ainda respirar entre o caos e o tempo.

 

O ser não se explica: pulsa.

Não se organiza: atravessa.

É feito de vazios não compreendidos,

mentiras necessárias,

e pequenas epifanias que brotam

no intervalo entre a culpa e o espanto.

 

Não é possível exigir pureza da existência.

Nem coerência.

A identidade não é um ponto fixo,

mas um fio em movimento,

ora deserto, ora fonte;

ora ferida, ora fábula.

 

O que se é, nunca se reduz ao que se mostra.

Há sempre mais:

mais do que cabe na fala,

mais do que suportam os olhos alheios.

Há sempre o que se finge e o que se salva.

 

Ser é carregar o inacabado com dignidade.

É aceitar que há um tanto de invenção no que se é,

e ainda assim não deixar de ser verdade.

 

Essa é a crença que me acompanha:

que cada ser, em sua labuta secreta,

sabe, mesmo quando cala,

da sua própria dor,

da sua própria delícia,

do que significa, no fundo,

ser o que é.

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 06/09/2025
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