WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
O Menino que Fui Ainda Me Espia?
Há um ponto em nossas vidas em que deixamos de ser crianças, mas nunca sabemos exatamente quando foi. Não há uma data marcada, um rito definitivo, um aviso claro. Crescer é um processo silencioso, sorrateiro. De repente, estamos diante do espelho com rugas que não desenhamos e responsabilidades que não lembramos de pedir. E então, surge a pergunta inevitável: Onde está o menino que fui?
Pablo Neruda, no poema XLIV, de O Livro das Perguntas, ousa tocar nessa ferida, essa ausência tão presente. Ele não pergunta apenas onde está a criança, mas se ela ainda vive dentro dele ou se foi. E ao fazer isso, nos arrasta junto ao espelho da alma: o que de nós morre quando a infância se vai?
A infância não é apenas um tempo cronológico. Ela é um modo de olhar o mundo: com encantamento, com perguntas sem medo, com a coragem de amar sem armaduras. E então crescemos, e aprendemos a não confiar, a não sonhar alto, a desconfiar da própria esperança. Trocamos a espontaneidade pelo cálculo. E aquele ser pequeno que um dia fomos, com olhos mais amplos que o mundo, começa a nos olhar de longe, com estranhamento.
Talvez por isso Neruda pergunte: “Por que andamos tanto tempo crescendo para separar-nos?” Porque crescer, na lógica adulta, parece significar abandonar o que era gratuito, inútil, leve. Aprendemos que brincar é perda de tempo, que sonhar é imprudência, que chorar é fraqueza. Mas será que tudo isso era mesmo infantil? Ou apenas essencial?
Ao longo da minha vida, essa pergunta ganhou camadas. Fui pai pela primeira vez aos 22 anos e a experiência ganhou mais um integrante aos 30. Ainda imaturo, revivi fragmentos da infância ao lado dos meus filhos, não tão intensamente, talvez, como hoje entendo que poderia. A vida me deu uma terceira chance quando me tornei pai novamente aos 40: ali, sim, fui criança de novo com minha filha, em muitos momentos. Não fingindo ser, mas sendo. E agora, tendo cruzado a marca das seis décadas, são meus netos que me conduzem, semanalmente, de volta àquele menino que ainda mora em mim ou, quem sabe, que sou.
Às vezes, a criança não morre. Ela se esconde. Fica ali, nos cantos da memória, esperando um olhar, uma brecha. Resiste em pequenas rebeliões: no riso solto diante do absurdo, no impulso de correr sem razão, na lágrima que escapa vendo um pôr do sol. Está ali quando ficamos encantados, mesmo que tentemos disfarçar.
Mas há quem a enterre de vez. Gente que sufoca o ser que foi, por medo ou vergonha. Gente que fecha as janelas da alma para a luz da infância, como quem abandona uma casa para nunca mais voltar. E então, talvez, seja essa a morte mais trágica: não a biológica, mas a do espanto, da leveza, da fé no mundo.
“E se minha alma tombou, por que permanece o esqueleto?”, pergunta Neruda. Talvez o corpo siga, automático, funcional, cumpridor de deveres. Mas a alma, essa que fazia perguntas, que se encantava com borboletas, essa pode ter ficado para trás, em alguma tarde quente de verão, na bicicleta esquecida, no último abraço que demos em um amigo imaginário.
Crescer deveria ser expansão, e não amputação.
Não para substituir a infância, mas para acolhê-la no que viramos.
Será que essa infância já se perdeu nos becos do tempo?
Ou ainda seria possível reencontrá-la nas esquinas secretas da memória, onde moram os silêncios que nunca deixamos de escutar?
Talvez, ao menor sinal de pausa, haja um modo de sentir seus passos outra vez,
no riso que escapa sem motivo, no olhar que ainda se comove com o inútil, na lembrança que retorna não para doer, mas para sussurrar, com voz antiga e leve:“ainda estou aqui, se quiser brincar de novo.”