WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
Ainda Me Espio, Menino
No espelho embaçado do tempo,
há olhos que não envelhecem.
Entre rugas e silêncios,
espreita um menino que fui.
Não sei o dia em que partiu,
nem o gesto exato da despedida.
Foi ficando para trás,
como brinquedo esquecido no quintal da alma.
Cresci, disseram.
Aprendi a contar horas,
a esperar filas,
a sorrir por educação,
a suportar ausências que não escolhi,
a assinar papéis,
a engolir lágrimas com o disfarce.
Mas às vezes, no intervalo do mundo,
ele volta.
No riso que escapa sem motivo,
na lágrima que nasce ao ver o mar,
no susto bom de uma lembrança.
Ele não fala, mas olha.
Com olhos grandes,
cheios de perguntas que desaprendi.
Esse olhar sempre me seguiu,
mas me atravessou mais fundo
quando alcancei as seis décadas de estrada.
Talvez porque a infância tenha ficado
numa curva esquecida de cinquenta anos atrás,
não por escolha, mas por pressa do mundo
que me empurrou para fases que ainda não sabia viver.
O menino não me julga.
Habita em mim, silencioso,
e me espia por dentro, curioso,
como quem pergunta, com ternura:
“Foi só isso que virou?”
Há dias em que o abraço dele
é o que me salva da rotina.
E compreendo, enfim:
não sou o que ficou depois da infância,
sou o que sobreviveu com ela.