WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
“Desvalorizei as Paredes”
— e foi nelas que meu pensar reaprendeu a nascer.
Às vezes, me pergunto quantas verdades eu deixei de ver só porque já estava pronto para julgar.
Sim, julgar é fácil. É até confortável. Existe um alívio quase infantil em dividir o mundo em bons e maus, certos e errados, luz e sombra. Mas o problema é que, nesse teatro de simplificações, eu esqueço que também sou parte do cenário. E, pior, esqueço que carrego as mesmas sombras que aponto nos outros.
Mia Couto escreveu que “quanto menos entendemos, mais julgamos”. Eu entendi isso tarde. Gastei anos confundindo opinião com entendimento, rótulo com conhecimento, juízo com justiça. Era como se o mundo fosse um lugar lá fora, separado de mim. Um lugar a ser consertado, corrigido, vencido. E, claro, eu sempre achava que estava do lado certo.
Mas um dia, não tão distante, cansado de tantas certezas, comecei a desconfiar do meu próprio olhar.
Descobri que as armadilhas não estavam apenas nas esquinas da vida, estavam em mim. Eram filtros, preconceitos disfarçados de bom senso e que eu já chamava de conceitos, como se o simples amadurecimento do pré-julgamento o tornasse legítimo. Eram memórias mal resolvidas vestidas de verdades absolutas. A realidade, percebi, não era uma coisa fixa: era o nome que eu dava para as coisas que me pareciam seguras. Eu chamava de “realidade” tudo aquilo que me impedia de escutar o outro.
Lembrei então da resposta de Ho Chi Minh, revolucionário, poeta e estadista vietnamita, quando lhe perguntaram como conseguia escrever versos ternos mesmo em uma prisão desumana. Ele respondeu: “Eu desvalorizei as paredes.” E não foi apenas uma frase: foi uma postura de alma. Em um de seus poemas mais tocantes, ele escreve que “pela janela o homem contempla a lua repleta; através das grades, a lua vem contemplar o poeta.” Há algo de profundamente humano e imensamente lúcido, em quem, mesmo privado de tudo, ainda consegue ser espelho para a beleza. Essa imagem ficou em mim como um aviso: as paredes mais espessas são mentais. E, às vezes, são feitas de argumentos tão bem empilhados que parecem muralhas de razão.
E talvez eu só tenha compreendido isso verdadeiramente quando vivi a mesma experiência de Ho Chi Minh. Estive em um lugar onde os dias não eram meus, onde as portas só se abriam por fora e o tempo parecia dissolver a própria noção de futuro. Um espaço de concreto e espera, onde o céu era visto por entre vãos e onde cada gesto cotidiano era regulado por vontades alheias.
Como ele, também vi a beleza atravessar as frestas. Lembro do fim de tarde em que a luz tocou o chão frio e, por um instante, parecia que o mundo lá fora respirava por mim. A lua não me olhava diretamente, mas algo em mim ainda era capaz de reconhecê-la e ser reconhecido por ela. E foi nesse espaço aparentemente estéril que algo dentro de mim floresceu com força silenciosa.
Foi o lugar mais inesperado e indesejado onde já estive… e, ainda assim, o mais fértil. Porque ali, onde tudo parecia controle, reencontrei liberdade: a de pensar sem ruído, a de olhar para dentro sem fuga, a de sentir o que antes eu apenas evitava. Ali, o meu pensar reaprendeu a nascer.
Comecei, então, um processo de desvalorização das minhas próprias paredes. Uma espécie de antivírus existencial, como Mia Couto sugeriu, uma faxina mental que me obrigava a reler minhas certezas com o cuidado de quem lê uma carta escrita por alguém que amo.
Percebi também que a ideia de “identidade”, essa obsessão que temos por saber exatamente quem somos, era mais uma dessas armadilhas. Porque se eu sou apenas homem, ou moreno, ou brasileiro, ou adulto, então o que faço com tudo aquilo em mim que escapa dessas definições? E com tudo aquilo que ainda posso vir a ser?
Simone de Beauvoir dizia que “a verdadeira natureza humana é não ter natureza nenhuma”. Essa frase me assustou quando a ouvi pela primeira vez. Mas, hoje, ela me liberta. Somos movimento, não essência. Somos construção, não destino. Somos troca, não isolamento.
E talvez por isso eu tenha me apaixonado pela escrita. Porque escrever é poder ser outros. É vestir outras vozes, caminhar em outras peles. É, como disse Ferreira Gullar, desafiar o impossível e dizer o indizível. O poema, diz ele, “não tem nada dentro, a não ser o ressoar de uma imprecisa voz que não quer se apagar.” E, no fundo, essa voz somos todos nós tentando ser ouvidos por nós mesmos.
Tenho pensado muito na infância. Não como um tempo perdido, mas como uma janela que ainda mora em mim. Uma janela que às vezes se fecha, mas que nunca desaparece. Como escrevi certa vez: “No espelho embaçado do tempo,
há olhos que não envelhecem...”.
Esse menino que fui ainda me espia por dentro, curioso, perguntando baixinho: “Foi só isso que virou?” E, nessas horas, percebo que ele não me julga. Me acolhe. Me lembra que crescer não foi o fim da infância, mas o modo como ela sobreviveu em mim.
Hoje, tento reaprender a ler o mundo. Não só os livros, mas os rostos, os silêncios, os gestos. Tento não julgar tão rápido, não reagir antes de entender. Tento enxergar além das palavras e ouvir o que há por trás dos muros, meus e dos outros.
Porque, no fim, tudo carrega um peso, visível ou não, e até a noite mais escura abriga, em silêncio, um núcleo de sentido que insiste em não se apagar. E enquanto houver essa voz, essa que sou eu e somos nós, ainda haverá luz tentando romper o escuro.