WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
Faxina de Certezas
Desvalorizei as paredes,
e nelas meu pensar reaprendeu a nascer.
O mundo, que eu julgava dividido,
era também feito de mim:
minhas sombras apontavam outras sombras,
meus rótulos vestiam antigas dores,
meus conceitos não passavam
de preconceitos amadurecidos no silêncio.
Um dia, cansado de certezas,
desconfiei do meu próprio olhar.
E percebi:
as muralhas mais duras
são aquelas erguidas dentro,
com tijolos de razão empilhados
até o céu.
Ho Chi Minh ensinou:
mesmo em grades há janelas,
mesmo em prisão há lua,
mesmo no limite pode florescer ternura.
E eu aprendi,
no espaço estreito,
a ver o infinito passar pelas frestas.
Foi ali,
onde o tempo não era meu,
que encontrei a liberdade mais rara:
a de me escutar sem ruído,
a de ver a beleza atravessar a espera,
a de sentir que pensar
é um nascer contínuo.
E então comecei
a desmontar minhas paredes.
Um antivírus da alma,
uma faxina de certezas,
como quem relê
uma carta de amor esquecida.
Entendi que a identidade é armadilha:
sou homem, mas não só;
sou adulto, mas ainda menino;
sou o que fui,
e tudo o que ainda posso ser.
Nenhuma essência me prende,
pois existir é movimento,
não destino.
A escrita me salva:
ser outros,
vestir vozes,
guardar no poema
aquela voz imprecisa
que não quer se apagar.
E no espelho embaçado do tempo
a infância me visita:
olhos que não envelhecem,
continuam perguntando baixinho:
“Foi só isso que virou?”
Não, menino,
crescer não foi o fim de ti,
mas a forma que arranjei
para que tu continues em mim.
Hoje, aprendo a ler
não só os livros,
mas os gestos,
os silêncios,
os rostos que me atravessam.
Porque até a noite mais densa
guarda um núcleo de sentido,
um coração de luz
insistindo em não se apagar.
E enquanto essa voz me chamar,
voz minha, voz nossa,
nenhum muro será intransponível.