WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
Nem Espetáculo, Nem Rotina
Há quem passe pela vida como quem observa o mundo pela janela num dia cinzento: sem se arriscar a sair, sem se molhar, sem sentir o vento no rosto. Gente que prefere a segurança do vidro ao frio da experiência. Espera o tempo melhorar, o sol voltar, ou a certeza chegar. Enquanto isso, os dias passam e a vida, também.
Mario Lago foi o contrário disso. “Fiz o que quis e fiz com paixão”, disse ele, com a serenidade de quem não foi espectador da própria história. A frase, longe de soar impulsiva, revela uma escolha existencial: a de viver com presença, com entrega, com verdade. Uma vida imperfeita, sim, mas inteiramente vivida.
Paixão, aqui, não é impulso desgovernado nem romantismo cego. É a força interior que nos move com propósito, que nos impede de viver pela metade. É envolvimento com o que se faz e com quem se é. É intensidade com consciência. É o antídoto contra a apatia.
É claro que viver com esse tipo de inteireza não nos poupa de falhas, mas nos livra de um mal maior: o de não ter vivido. Errar com lucidez e sinceridade não é ruína, é lapidação. São os tropeços que deixam vestígios de caminho percorrido. E mesmo os desvios, quando vêm de escolhas autênticas, nos transformam.
Mario não esperou a vida passar na esperança de um cenário ideal. Ele viveu sob todos os climas, mesmo quando o céu não ajudava. Assumiu seus atos, celebrou seus acertos e não se desculpou por sentir. Encarou a própria história como quem sabe que estar vivo é mais que estar certo, é estar inteiro.
Mas o tempo, que não para, ensina novas formas de presença. Com a maturidade, aprendemos que intensidade não é sinônimo de agitação. A alma pode arder em silêncio. E a paixão, com o tempo, aprende a ser firme, sem ser abrupta; profunda, sem ser excessiva.
Mas é no limiar delicado da maturidade que o pensamento de Mario encontra o complemento necessário nas palavras da escritora Martha Medeiros, que escreveu: "Uma vida sem sustos. É o que desejo pra mim." Ela não fala de apatia ou anestesia emocional, mas de um tipo de serenidade que permite acolher a força dos sentimentos sem se perder neles, com a firmeza de quem permanece de pé, mesmo quando o vento desloca tudo.
Se Mario nos convida a viver a juventude da alma, aquela fase em que o mais importante é não desperdiçar o desfile da vida, mesmo que sob riscos e imperfeições, Martha nos oferece o olhar de quem aprendeu que a intensidade também pode ser silenciosa, e que não há vergonha em desejar estabilidade, desde que ela não seja fuga.
Juntos, seus pensamentos formam um arco completo da existência. Um nos impulsiona a entrar no palco, a viver sem omissão. O outro, a permanecer presente sem se desequilibrar. Viver bem, então, talvez não seja escolher entre intensidade ou calma, mas reconhecer o tempo de cada uma, e permitir-se atravessar ambos com consciência, sem espetáculo e sem rotina.
Amadurecer pode ser isso: não apenas sair de trás da janela, mas aprender a caminhar em meio às nuvens com a serenidade de quem conhece o peso dos próprios passos, e ainda assim, seguir.
Nem euforia cega, nem medo contido. Mas uma forma de existir que não se protege da vida, e não a desafia por orgulho. Uma coragem que não grita, mas sustenta. Um viver que não recua, mas também não se lança sem propósito.
Porque no fundo, a melhor maneira de viver é essa: estar inteiro, mas não em desatino. Firme, mas não fechado. Disponível para a vida, não para se perder nela, mas para, enfim, se encontrar.