WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
A Honra dos Que Tentam
Houve um tempo em que viver parecia ser sinônimo de acertar.
Quando não era o meio em que vivíamos, eram os mestres ou os púlpitos, por vezes bem-intencionados, que pregavam uma promessa de prosperidade, conforto e sucesso contínuo que o próprio divino jamais garantiu. Confundiu-se fé com fórmula, esperança com resultado. Como se o caminho justo fosse isento de dor, e a vida plena estivesse condicionada a nunca errar.
Mas a vida, essa senhora imprevisível, se ocupa em desmentir as cartilhas com uma ironia silenciosa e uma paciência de mestre.
A verdade é que ninguém vive impunemente.
Cedo ou tarde, todos tropeçamos. Um sonho não realizado, uma palavra mal colocada, uma decisão que se revelou ruína. Fracassamos, sim. E dói. Como dói. O fracasso tem o gosto amargo do “e se”, o cheiro de promessas que não se cumpriram e a textura áspera da esperança desfeita. Mas ele também tem lições que o sucesso, por vaidade ou soberba, não se digna a ensinar.
O fracasso é espelho. Ele nos devolve quem realmente somos quando o brilho se apaga. Sem aplausos, sem plateia, sem conquistas que encobrem nossas sombras. Ali, nus diante da queda, conhecemos a verdade mais íntima da existência: não somos de mármore, somos de carne, e é essa imperfeição que nos humaniza.
Como dizia Friedrich Nietzsche, "o que não me mata, me fortalece." Não por um heroísmo vazio, mas porque toda dor genuína expande o território da alma. O sofrimento e a frustração nos rasgam, sim, mas é por essas fendas que entra a luz da consciência.
As frustrações, longe de serem obstáculos, são mapas. Apontam rotas que não servem mais, indicam os limites do que éramos para que possamos construir o que seremos. São os “nãos” da vida que escavam dentro de nós o espaço necessário para abrigar futuros “sins”.
Søren Kierkegaard, pai do existencialismo, escreveu: “a vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas deve ser vivida olhando-se para frente.” É por isso que o fracasso, embora amargo no presente, frequentemente é o solo fértil de onde brotam nossos maiores saltos de consciência.
Mas, veja bem, só colhe a beleza da frustração quem ousou plantar o risco. Quem, mesmo com medo, caminhou. Quem entrou na chuva, mesmo sabendo que o céu podia não abrir.
Há grandeza em tentar. Há nobreza em cair de pé. E há uma espécie rara de sabedoria em perceber que o chão é também lugar de aprendizado, não apenas de queda.
Conformar-se com o menos é morrer aos poucos, é assistir à própria vida de arquibancada. É viver de boias, sem nunca ter nadado no mar aberto. E que graça há nisso?
Por isso, que se riam os sensatos. Que cochichem os que vivem pela metade. “Prefiro ser feliz, embora louco, que em conformidade viver”, disse Martin Luther King e, com ele, eu concordo.
Prefiro sonhar e despedaçar-me, a jamais ter sentido o sabor da própria ousadia.
Porque no fim, e só no fim, entenderemos: não fomos feitos para vencer sempre. Fomos feitos para viver por inteiro.
E isso, ah… isso inclui cair, chorar, levantar, sorrir, amar e tentar de novo.