WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
Solidão Invisível
Saio de casa com o rosto arrumado como quem arruma a cama: não porque deseje o dia, mas porque há um certo dever em parecer pronto. No meio dos outros, ocupo meu lugar com gestos aprendidos, palavras medidas, presenças que respondem pelo meu nome. Ninguém percebe e é assim que deve ser. Fingir não é mentir. É apenas a forma mais digna que encontrei de continuar, quando o que sinto não cabe na fala, nem merece pergunta.
A solidão que me habita não nasce da ausência de pessoas, nem do descuido destas. Estou rodeado de afeto, de vozes, de olhares sinceros, mas há zonas em mim onde só eu alcanço. É uma solidão de dentro, provocadamente invisível. Não para afastar, mas para preservar. Não me falta amor: falta-me linguagem para dizer certos estados de mim.
Quando sorrio, não é farsa: é delicadeza. Um gesto que preserva a ordem do mundo. Não me escondo, me contenho. Há uma diferença. O que está em mim não precisa ser curado, nem visto, apenas sustentado, acolhido com gentileza, como quem carrega uma velha canção dentro do peito e aprende a cantar para dentro.
Não espero ser compreendido. E não por ceticismo, mas porque compreender, às vezes, pesa demais. Muitas vezes é mais generoso deixar que o outro exista em paz, sem tradução completa.
Acendo a luz não para ver, mas para que saibam que estou aqui. Mesmo que não entrem. Mesmo que não perguntem.
E se a sorte vier, que seja bem-vinda. Mas não a espero. Porque esperar é colocar o que me sustenta nas mãos do acaso, e aprendi com o tempo, que a paz está em caminhar sem promessa, sem plateia, e no ritmo que a alma suportar. Apenas com a dignidade de quem veste o silêncio como se fosse a própria pele, e, ao vesti-lo, vai alinhando as partes de si como um quebra-cabeça íntimo, peça a peça, até que tudo encontre forma, abrigo e chão, ainda que transitórios, ainda que frágeis, mas suficientes por um tempo.
Um pouso breve para a alma inquieta; um abrigo que ameniza essa solidão invisível, até que ela venha outra vez, e ela virá. Mas quando vier, encontrará um corpo menos exposto, um espírito mais sereno, um coração que já sabe: algumas solidões não se vencem, mas se escutam. E se, mesmo assim, doer, haverá silêncio suficiente para caber nela, e tempo bastante para deixá-la passar.