WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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Textos

Versos Onde Não Cabe Voz

 

Há palavras que morrem na beira da boca,
não por medo,
mas por respeito à densidade das coisas.
O silêncio é uma forma de coragem
que não se vangloria.

 

Quando calo,
não é por omissão,
mas porque há verdades que sangram
quando pronunciadas com pressa.

 

E, às vezes,
o silêncio amadurece em escolha,
como quem recua não para fugir,
mas para enxergar melhor o que vale lutar.

 

Prefiro as causas que já nascem à deriva,
aquelas cujas chances de naufrágio
são maiores que as de chegar à margem.
Não por fraqueza,
mas porque só elas pedem a alma inteira.
É preciso ser vasto
pra ir ao fundo
e emergir com o que é essencial.

 

Numa era de conquistas baratas,
em que qualquer um pode subir,
sem peso, sem alma, sem lastro,
prefiro as causas que nascem do impossível.
Se vencidas,
resgatam o que fomos,
e nos tornam mais vastos
do que antes de lutar.

 

É nesse limiar do incerto,
onde tudo parece além do alcançável,
que a urgência de criar se acende,
não por vaidade,
mas como uma forma de permanecer
quando o mundo ameaça nos desfazer.

 

Então crio,
porque já é tarde para negar o que arde,
e cedo demais para silenciar de vez.
Crio para respirar por dentro,
nas profundezas que me habitam
quando o mundo me exige por fora.

 

Quando a inspiração se recolhe
como brasa adormecida sob o véu das cinzas,
não me calo.
Antes, escrevo.
Não por ter em mim o lume,
mas para buscá-lo no gesto da criação.

 

Cada verso é uma lanterna acesa
numa caverna onde ecoa
a pergunta sem resposta:
“por que continuar?”

E continuo.

 

Pois descobri que o tempo
não nos dá um rosto,
somos nós que o esculpimos,
linha a linha,
com aquilo que escolhemos amar,
defender, suportar.

 

E que um dia,
alguém me veja,
não pelo nome que carrego,
mas pelo contorno sereno
de quem silenciou
onde o grito seria vaidade,
e que ousou romper o silêncio
quando calar seria pactuar com a covardia.

 

Por ora,
ainda não fui salvo.
Nem conquistei o mundo,
talvez nem seja ele
o que desejo conquistar.
Mas algo em mim mudou:
sou mais fiel ao que sou,
menos intacto,
e, por isso, mais inteiro.

 

E isso, talvez,
seja uma forma secreta de eternidade.

 

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 20/09/2025
Alterado em 20/09/2025
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