WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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A VIRTUDE OCULTA DA MENTIRA

 

PARTE 1: A SOMBRA QUE PROTEGE

Iniciei minha formação acadêmica em Direito na Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL), na década passada. Como acontece com muitos estudantes, os grandes debates da ciência jurídica acabaram se misturando aos dilemas da vida. Um deles, em especial, me acompanhou desde os primeiros semestres: haveria alguma virtude em dizer a mentira?

Parece provocativo, quase paradoxal, especialmente em uma área tão comprometida com a verdade dos fatos e com a prova legal. Mas logo aprendi que o tema não é só recorrente no Direito, ele é estrutural. No processo penal, por exemplo, há um contraste que sempre me inquietou: o réu tem o direito de mentir em sua autodefesa, sem que isso configure crime; já a testemunha, se faltar com a verdade, comete o delito de falso testemunho, nos termos do artigo 342 do Código Penal. Essa distinção, ainda que justificada juridicamente pelo princípio da ampla defesa, expõe algo mais profundo: a mentira não é um absoluto moral, mas uma ferramenta, uma escolha, e, em certos contextos, uma permissão.

Lembro que, na época, fiz inúmeras buscas sobre o tema. Anotei em cadernos, grifei livros e acumulei recortes, como quem tenta montar um quebra-cabeça ético. Esses dias, reencontrei alguns desses alfarrábios. Havia neles uma mistura de perplexidade e encantamento. E foi isso que reacendeu meu desejo de voltar a esse debate. A dúvida inicial se manteve, mas se expandiu: será que toda mentira é condenável? Ou haveria, ainda que raramente, alguma forma de dignidade na mentira, uma mentira que, em vez de manipular, proteja? Que, em vez de ocultar a verdade, ampare quem ainda não pode suportá-la?

“A mentira tem pernas curtas”, diz o ditado. Mas talvez, em certos dias, tenha também braços longos o suficiente para amparar uma dor insuportável.

A mentira está entranhada nas tramas da vida cotidiana. Sociologicamente, ela se apresenta como um mecanismo de coesão, uma forma de amortecer os atritos da convivência. No teatro da vida social, como diria Goffman, todos desempenhamos papéis, e muitas vezes a verdade absoluta comprometeria o enredo. É mais fácil sustentar uma farsa gentil do que encarar a nudez áspera da realidade.

No campo filosófico, a mentira também encontra lugar. Nietzsche, por exemplo, alertava que as verdades são ilusões que esquecemos que são ilusões. E Platão, no mito da caverna, já sugeria que a realidade percebida pode ser apenas uma sombra projetada, uma meia-verdade tida como totalidade. Assim, mentir nem sempre é trair a verdade, mas às vezes proteger o outro da crueza do que ainda não pode ser compreendido.

Humanamente, a mentira emerge como defesa. Ela não nasce do ódio, mas da fragilidade. É um anteparo contra o insuportável. Um escudo moldado pelo medo, pela vergonha, pela necessidade de evitar a dor do outro ou a própria.

Mas a mentira tem seus venenos. Quando se institucionaliza, quando se torna instrumento sistemático de um regime autoritário e de um sistema político que se sustenta na supressão da verdade, ela deixa de ser defesa e torna-se opressão. Durante o regime civil-militar brasileiro (1964–1985), foram muitos os exemplos de seu uso sistemático: censura oficial, manipulação de informações, desaparecimentos forjados, versões fabricadas para justificar a repressão. Nesse contexto, a mentira não operava apenas no discurso do Estado, infiltrava-se também nas relações sociais, no medo coletivo, nas delações incentivadas, nas famílias silenciadas. A mentira se tornava linguagem do cotidiano. E, assim, ela não apenas encobria a verdade: destruía-a, reescrevia a história, anestesiava consciências.

No plano íntimo, a mentira repetida pode desfigurar o vínculo. Ela mina a confiança, transforma a relação em palco de dúvida e, por vezes, torna-se um vício. Um modo de estar no mundo sem nunca estar inteiro.

E, no entanto, há nela uma zona de ambiguidade.

Às vezes, mentir é colocar-se entre o outro e a verdade como um para-raios. Uma metáfora, é claro. Ninguém quer ser atingido por um raio. Mas há momentos em que deixar o outro exposto à verdade seria crueldade, e mentir, um gesto de amor.

É justamente nesse território liminar, onde o falso não é vilania, mas necessidade, que deixo, àqueles que chegaram até aqui, um convite ao mergulho mais fundo. Na Parte 2, aventuro-me na arriscada, porém inevitável, hipótese de que “quando mentir é um ato de humanidade”, a ética não se corrompe, ela se reinventa. Pois há mentiras que não ferem, mas protegem; não distorcem, mas sustentam. E talvez seja nesse silêncio ético, que se recusa a ferir com verdades, que a mentira revela sua face mais rara, mais nobre, mais justa.

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 21/09/2025
Alterado em 21/09/2025
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