WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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A VIRTUDE OCULTA DA MENTIRA

 

PARTE 2: QUANDO MENTIR É UM ATO DE HUMANIDADE

Mais de uma década se passou desde que aquela inquietação acadêmica me tomou pela primeira vez. Eu já não era tão jovem quando comecei minha formação em Direito, mas o espanto diante das zonas cinzentas da ética era o mesmo de um estudante recém-chegado. O tempo seguiu, outros temas tomaram seu lugar, mas essa pergunta permaneceu comigo. Hoje, mais do que curiosidade, o que me move é um impulso profundo de atravessar esse terreno desconfortável, onde a mentira e a verdade deixam de ser polos opostos e passam a se tocar em áreas delicadas do humano. Voltar a esse tema é, para mim, mais que um exercício intelectual: é uma confrontação íntima, silenciosa, com zonas de mim que ainda buscam compreender o que significa, de fato, proteger alguém da verdade.

Antes de seguir, todavia, cabe dizer que essa minha retomada do dilema sobre a mentira não se dá por trilhas religiosas. É intencional o afastamento de qualquer moralismo teológico que aponte a mentira como invenção exclusiva das trevas, onde se afirma que “o pai da mentira” governa. Atribuir esse fenômeno ao domínio do Mal (com letra maiúscula), desloca o debate para um campo em que a verdade e a mentira não são vivências humanas, mas batalhas místicas entre luz e escuridão. Não desejo transitar por esse terreno, não por desrespeito, mas porque sei que, uma vez ali, é impossível caminhar sem evocar todo um sistema de crenças e códigos de fé que não se sustentam isolados de outras profundezas espirituais. E minha busca, essa que iniciei ainda nos tempos de faculdade, quer permanecer aqui, entre os dilemas concretos, as angústias éticas e as zonas silenciosas do íntimo, onde a consciência humana se debate entre o certo e o necessário.

É nesse terreno sensível, onde a moral tradicional hesita, que encontramos um dos casos mais emblemáticos da virtude possível na mentira.

Anne Frank sobreviveu escondida durante dois anos em um anexo secreto, durante o nazismo. Sua existência provisória só foi possível porque pessoas mentiram: mentiram às autoridades, aos vizinhos, aos registros. Mentiram para proteger a vida. Essas mentiras não eram covardes, mas corajosas. Não eram interesseiras, mas profundamente éticas.

Noutro exemplo, durante os anos do regime civil-militar brasileiro, muitas famílias acolheram pessoas perseguidas por razões políticas. E mentiram. Negaram sua presença, inventaram histórias, enganaram agentes do Estado. Cada uma dessas mentiras representava uma escolha ética, entre calar-se diante da injustiça ou arriscar-se por solidariedade.

A literatura também nos oferece exemplos comoventes. Em “A vida é bela”, filme de Roberto Benigni, o pai mente para o filho durante todo o tempo em que estão confinados em um campo de concentração nazista. Ele cria uma fantasia lúdica para que o horror não devaste a infância. A mentira, nesse caso, é uma ponte de afeto construída sobre o abismo da barbárie.

A filosofia moral nos oferece uma distinção valiosa. Max Weber falava em dois tipos de ética: a da convicção, que exige fidelidade incondicional aos princípios; e a da responsabilidade, que considera as consequências dos atos. A mentira compassiva nasce dessa segunda ética. Ela não busca enganar, mas proteger. Não deseja destruir a verdade, mas acolher o tempo do outro.

Por isso, há verdades que precisam amadurecer. Uma verdade dita fora de hora pode ser uma violência. Dizer a uma criança adotada, no auge da angústia, que foi rejeitada por seus pais biológicos pode ser factual, mas não é justo. Revelar a um paciente em estado terminal, sem preparo, que seu caso é irreversível, pode ser verdadeiro, mas não é sempre humano. O cuidado ético exige mais do que sinceridade: exige discernimento.

Ao lado das mentiras destrutivas, há aquelas que cuidam. A mãe que diz ao filho doente que ele vai melhorar. O amigo que silencia sua dor para consolar. O analista que, diante da fragilidade extrema, guarda uma interpretação para o momento certo. Essas mentiras não são engodos, mas delicadezas. E há ainda outra forma sutil, quase imperceptível, em que a verdade, ao ser expressa de maneira bruta ou mal interpretada, torna-se uma mácula, não porque seja uma mentira, mas porque fere mais do que esclarece. Nessas situações, oferecer uma versão mais branda, mais simbólica, não é falsificar os fatos, mas salvaguardar o sentido. Há verdades que, ditas fora de hora ou sem a escuta certa, tornam-se cruéis, e o cuidado está justamente em escolher entre ferir ou preservar.

Claro, é uma fronteira tênue. A mentira que protege pode virar manipulação. A compaixão pode escorregar para condescendência. Por isso, a mentira só revela sua virtude quando é fruto de consciência ética, quando há ausência de interesse pessoal, quando nasce do amor e não do ego.

Há quem diga que a verdade liberta. Mas há verdades que ferem, que esmagam, que paralisam. E há mentiras, raras, cuidadosas, silenciosas, que funcionam como pontes. Que sustentam a travessia até que se possa pisar, com segurança, no terreno da verdade.

A mentira é uma sombra. Mas, às vezes, é na sombra que a flor resiste ao sol impiedoso. Nem toda mentira é maldade. Algumas são humanidade.

E nesta longa odisseia investigativa, iniciada ainda na época da universidade, entre livros de Direito e outros, além das inquietações existenciais, pude finalmente aprofundar agora o tema que, por anos, permaneceu em suspenso, como uma pergunta sem ponto final. É claro que não fechei questão. Seria ingênuo, ou até desonesto, tentar encerrar um assunto tão denso, sensível e circunstancial com uma conclusão universal. A mentira, afinal, não se deixa legislar em termos absolutos. Ela se molda ao caso concreto, ao tempo, ao sujeito, ao silêncio, ao medo e, muitas vezes, ao amor.

Mas se não há sentença definitiva, houve um avanço. Os alfarrábios que um dia foram rabiscados à mão, guardados em pastas, esquecidos por um tempo, hoje reaparecem mais completos e, de certo modo, eternizados no vasto e mutante acervo cibernético da escrita contemporânea.

Quem sabe, em outra travessia, eu volte a este tema. Afinal, como disse Milan Kundera, “o que é suportável na vida não é a verdade, mas o sentido”. Talvez, então, a virtude da mentira resida justamente aí: na tentativa, ainda que imperfeita, de preservar o sentido quando a verdade, por si só, já não basta.

 

 

Crônica escrita com base nas seguintes referências:

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MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 21/09/2025
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