WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
O Quase Invisível Peso do "Mais ou Menos"
Não sei se estou lânguido. Talvez esteja. Talvez não. A verdade é que, ao me deparar com esse termo, algo em mim se mexeu, como se uma porta interna, silenciosa e esquecida, tivesse rangido levemente com o vento. Não foi um diagnóstico. Foi um espelho, desses embaçados, que não mostram o rosto com nitidez, mas devolvem o gesto.
O estranho da languidez é que ela não dói. Pelo menos não como estamos acostumados a identificar a dor. Ela não nos derruba nem nos sufoca. Apenas embota. Acordamos, vestimos a roupa, saímos. Não é tristeza, tampouco depressão, é outra coisa, mais sutil e insidiosa. É como andar com os bolsos cheios de areia: não impede os passos, mas os torna inexplicavelmente pesados.
Quando li sobre isso, me perguntei se esse estado não seria, no fundo, uma consequência natural da vida como a vivemos hoje, acelerada, fragmentada, comparativa, sempre sedenta por “mais”. Mas me pergunto também se não é apenas o reflexo das minhas próprias apostas altas demais, com semblantes de utopias: projetos que talvez tivessem mais paixão do que real possibilidade. Ou ainda, e aqui a pergunta se adensa, seria apenas o resultado direto das minhas escolhas?
Talvez sim. Porque há decisões que tomamos acreditando que nos levarão a um novo início, e recomeçar é necessário, sim, mas carrega o peso de não ser um início puro. Recomeçar exige força, tempo e uma espécie de fé que nem sempre está presente no ato. Às vezes, o recomeço demora. Às vezes, ele nunca chega do jeito que esperávamos, e isso não é fracasso, mas o cansaço natural de quem ainda tenta.
Não é que eu não saiba por que continuo. É que não sei exatamente pra onde. E essa dúvida muda tudo. Caminhar por inércia é menos inquietante quando se conhece o destino. Mas, sem rumo definido, o caminho se torna um corredor sem janelas, onde cada passo ecoa no vazio.
Olho ao redor e percebo, não em mim, mas no coletivo, esse traço comum: gente funcional, produtiva, gentil... e, no entanto, algo falta. Não é brilho, nem energia, nem vontade. É presença. Como se muitos de nós estivéssemos aqui, mas não inteiramente.
Não direi que “não sei se estou lânguido”. Penso ser mais profundo do que isso. Talvez eu apenas tenha reconhecido uma sintonia desconfortável com essa ideia, como quem ouve uma nota musical e percebe que ela vibra dentro, mesmo sem ter sido tocada por nós.
E é aqui que entra a tensão: uma espécie de autoanálise travestida de defesa, quase vaidade mesmo, de recusar o diagnóstico, de dizer a mim mesmo que “não, não é isso”, que o que tenho é apenas cansaço, ou um descompasso momentâneo. Porque aceitar a languidez seria admitir que estive por demais tempo num lugar em que não queria estar. E se estou tentando sair dele, prefiro sair sem precisar dar nome à estada.
Porque, sim, a vida deu uma freada brusca há algum tempo. E é claro que eu sei disso. Só que, ao invés de chamá-la de trauma, de pausa forçada, de perda ou virada, talvez seja mais fácil chamá-la de languidez. Uma palavra bonita e quase barata para um ponto de parada existencial que, por dentro, teve um custo muito alto.
E no fim, fico assim: em suspenso, entre conceitos e percepções, entre o saber e o sentir. Com o diagnóstico em aberto e, de certo modo, sem nenhuma intenção real de descobri-lo. Porque talvez haja mais verdade na pergunta do que na resposta. E isso, por ora, me basta.