WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
O Que Será que Me Move?
Vivo um tempo de introspecção profunda e necessária, onde as perguntas superam, em muito, as certezas. Tempo talvez provocado pela travessia das seis décadas, esse ponto em que a existência começa a ser mais pesada que promissora, e o futuro, mais contemplado que conquistado.
Talvez porque a vida, essa entidade indomável, tenha se desdobrado de maneiras que escaparam, uma a uma, ao roteiro que um dia idealizei.
Ou, talvez ainda, por compreender, com o peso da maturidade, que somos, sim, produtos das circunstâncias que nos forjaram.
E é possível, sim, que se eu houvesse crescido sob outros tetos, em outras geografias afetivas, cercado por vozes diferentes e silêncios de outra natureza, meus caminhos fossem outros, e meus abismos, também.
Mas o que já foi, é irrevogável. E diante do que não se pode alterar, restam as pausas.
Restam os balanços silenciosos.
E sobretudo, restam as perguntas que não cessam de arder.
Foi numa dessas pausas que me detive, dia desses, sobre os versos de Chico Buarque, mais precisamente sobre aquele que indaga:
“O que será que será…”
E me ocorreu que talvez, o que ele nomeia como “o que será”, seja essa inquietação que me habita sem nome ou fronteiras, essa força difusa, que pulsa como se tivesse vida própria, e que, ainda assim, é parte de mim.
Haverá algo mais enigmático do que aquilo que não se pode definir, mas que insiste em me mover?
Talvez seja a ausência. Ou a saudade de algo que nunca vivi. Ou até mesmo uma forma sutil de esperança, essa que sobrevive, mesmo depois de tantas desistências.
Lembro então de Sartre, que dizia que o ser humano é um projeto sem essência prévia, condenado à liberdade de ser. E compreendo que sou isso: um esboço inacabado de mim mesmo, alguém que existe antes de saber para quê, e que constrói sentido sobre ruínas, dia após dia.
É isso que vibra em mim quando ouço Chico: um sussurro que não se cala, um chamado que não se entende, mas que me impele adiante, ainda que sem direção. Uma espécie de ímpeto vital, alheio à lógica, à moral e à razão. Talvez seja simplesmente vida em sua forma mais crua e inevitável.
O que será que será?
Talvez seja o que me faz sentir ternura, mesmo sabendo o quanto a ternura desarma e me deixa exposto.
Talvez seja o que me move a buscar beleza nas coisas simples, mesmo sabendo que a beleza, por vezes, se esconde ou se nega.
Talvez seja o que me leva a perdoar, apesar de tudo.
Ou talvez, seja apenas o eco de uma ausência que nunca se completa.
O existencialismo me ensinou que não nascemos prontos, somos devir, não destino. Primeiro se vive, depois, com sorte, se compreende. E às vezes, nem isso.
A canção não responde. E eu também não.
Apenas continuo, como quem caminha sob neblina espessa, guiado mais pelo que pulsa dentro do que pelo que se vê fora. Porque talvez o que me define não seja aquilo que sei, mas a coragem de permanecer, mesmo sem saber por quê.
Mas é preciso fazer uma ressalva:
Esta reflexão nasce e se encerra em mim. Vem do silêncio que cultivo, das perguntas que me atravessam, das dores que aprendi a hospedar. É uma escuta voltada para dentro, sem pretensões teológicas nem pedidos ao alto.
Ainda assim, não ignoro que possa haver respostas além de mim. Talvez existam, dispersas no insondável, razões que escapam à minha razão.
Mas não foi delas que parti. E não são elas que sustentam por agora essa reunião de palavras.
Por isso, mesmo depois de toda essa tentativa de compreender, mesmo após toda essa lucidez construída ao custo de noites longas e silêncios pesados, permanece a pergunta, intacta, indomada, essencial:
O que será que será?