WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
Gabi: Meu Haja, Meu Milagre
Há criações que não nascem do tempo, mas de algo anterior a ele.
São decisões sussurradas pela eternidade, em silêncio, no exato momento em que a vida se inclina à beleza.
E, às vezes, essa beleza se forma da profusão de dois corpos que, ao se encontrarem, se reconhecem para formar outro corpo, e dar início a um novo destino.
Foi em janeiro de 2005.
No cruzamento de carne, desejo e entrega, houve mais do que impulso: houve direção.
E eu soube.
Primeiro com a mente, quando, em segredo, silenciei a lógica do controle e sabotei o curso anticonceptivo para que a concepção pudesse acontecer. Não por descuido, mas por certeza. Sabia o que fazia, e por que fazia. Forjei a ausência do impedimento como quem prepara o caminho para o sagrado.
E soube também em espírito, porque algo maior em mim já intuía que aquele seria o instante da travessia, o marco entre o que havia antes, e tudo o que viria depois. Ali se iniciou o recomeço. O primeiro dia do novo tempo.
Naquele momento, o “haja” não veio dos céus:
Veio de dentro, de mim, mas em parceria.
Foi como se Deus me desse espaço para declarar aquele verbo com Ele.
E eu o fiz, sem voz, mas com inteireza.
E, ainda assim, naquele átimo, ousei o impossível:
não apenas ouvi esse “haja”, mas, em segredo, o repeti dentro de mim.
Reivindiquei, por um instante sagrado, o direito de participar do milagre.
Não como Criador, mas como quem foi chamado a estar ali, no exato momento em que o universo decidiu tecer luz com carne.
E houve… você.
E em todos os instantes, visíveis ou invisíveis, ao meu lado, Diva.
Não apenas companheira da vida, mas mulher que honra o próprio nome, presença rara, essencial, quase celestial.
Foi nela que o tempo se recolheu para formar sua forma.
Foi nela que a vida se aninhou, em silêncio, no gesto curvo com que os milagres se preparam.
Enquanto eu sentia o milagre, ela o gestava.
E ali, entre nós, o mundo se renovou.
Já era setembro.
Não como um mês qualquer, mas como colheita.
Lembro que a terra parecia conter mais promessas, e o céu, uma espécie de confidência silenciosa.
Como na canção que diz:
"Quando entrar setembro / E a boa nova andar nos campos..."
Ali, no sopro desse tempo maduro, você nasceu.
A boa nova era você.
A colheita era a sua chegada.
Sonhos que plantamos juntos, sua mãe e eu, em silêncio e desejo, começaram a brotar com a sua primeira respiração.
Já sonhávamos juntos muito antes de saber.
E no seu nascimento, nossa voz, a voz do nosso amor, do nosso querer, cresceu.
Você foi a canção que semeamos no vento e que voltou em forma de presença, pele, olhar.
Você nasceu nesse tempo de raízes e música.
Tempo de sonhos que já existiam antes mesmo de terem nome.
Ali, a vida deixou de ser promessa e se fez carne.
Ali, sua presença me alcançou como uma resposta antiga.
Ali, o milagre ganhou forma, e nome.
Você foi crescendo.
Cada dia mais cheia de si, mais leve, mais inteira.
E quanto mais se revelava, mais a vida me parecia nova.
Em cada pequeno gesto seu, uma eternidade de sentido.
Era como se Deus ainda estivesse sussurrando aquele primeiro “haja”, só que agora, através de você.
Naquele tempo inaugural, eu te dei um nome.
E só depois, muito depois, compreendi o que ele carregava.
Primeiro veio o ato simples, como um gesto.
Mas o significado veio crescendo devagar, como árvore plantada com fé.
Hoje entendo: ele não foi escolha.
Foi revelação.
Carregas em teu nome mais do que letras.
Carregas parte de mim, costurada com amor, sem pretensão, como um selo silencioso.
E é por isso que hoje sei: ao nomear você, afirmei meu amor com mais profundidade do que imaginava.
Hoje, vinte anos depois, celebramos.
Eu, Diva, seus irmãos, e todos aqueles que formam o contorno sagrado da tua existência.
Não houve quem não tenha te recebido com alegria.
Você foi dádiva para todos nós, e permanece sendo.
Você não apenas chegou.
Você ancorou a esperança no nosso chão.
E agora, na culminância destas palavras, posso dizer seu nome, não como conclusão, mas como ápice.
Gabi.
Nome breve para uma eternidade de sentidos.
Você é luz que continua nascendo.
Você é palavra que ainda não se esgotou.
Você é “a filha que eu amo mais”, a única, não haverá outra em tempo algum.
Haver sido escolhido para ser seu pai não foi apenas assistir ao milagre, foi ser moldado por ele. Foi viver a experiência rara de ser invadido por algo tão puro que desarma, transforma e ensina.
Você não chegou a mim como uma ideia: chegou como verdade.
E, desde então, o tempo me obedece menos, e você me habita mais.
E se as palavras da minha prosa clamarem por algo mais denso, daqueles que só os melhores poetas sabem dizer, que seja Vinicius quem conclua por mim:
“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.”
“De tudo ao meu amor serei atento antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto…”
Porque em você,
a vida alcançou seu porquê mais profundo.
Que ela continue vasta, intensa, irrepetível,
como merece quem nasceu para ser luz.