WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
A Vitória de Pirro do Cotidiano
Na vida, há vitórias que se parecem com medalhas de chumbo: pesadas, disformes, frias. Conquistas que, embora nos coloquem no pódio, deixam uma sensação de esvaziamento, como se o preço pago tivesse consumido tudo aquilo que valia a pena. A expressão “vitória de Pirro”, herdada do rei Pirro de Épiro, ressurge como metáfora pungente para os triunfos modernos que nos custam a alma.
Pirro venceu os romanos, sim. Mas a cada batalha, perdia homens, generais, recursos, até que, após a vitória em Ásculo, teria dito: “Mais uma vitória como esta, e estarei perdido.” O rei venceu, mas à custa de tudo o que sustentava sua capacidade de continuar lutando. Quantos de nós não conhecemos bem esse tipo de glória?
Eu mesmo já comemorei conquistas que, no íntimo, soavam como derrota. Não pela ausência de mérito, mas pelo rastro que deixaram: noites mal dormidas, relações desgastadas, saúde deixada de lado, uma desconexão gradual daquilo que realmente importava. E tudo isso em nome de uma ideia vaga de sucesso, muitas vezes moldada mais pelo olhar alheio do que por convicção pessoal.
Mais que tempo ou afeto, comprometi algo ainda mais sutil: a minha liberdade. A espontaneidade dos dias, a leveza de escolher por desejo e não por obrigação, a capacidade de dizer “não” sem culpa. Fui me tornando funcionário da própria ambição, e percebi tarde que algumas vitórias são apenas formas elegantes de servidão.
Quantas pessoas vivem esse mesmo enredo? O projeto que deu certo, mas afastou o autor de si mesmo. A vitória no argumento que rompeu uma ponte. A realização que cobra demais, e cobra no que temos de mais íntimo. Nem toda meta alcançada é avanço. Às vezes, é apenas o deslocamento para mais longe daquilo que um dia chamamos de sentido.
Nietzsche alertava que “quem tem um porquê enfrenta qualquer como”, mas o problema é quando o “como” se impõe de tal maneira que corrompe o próprio “porquê”. A vitória, assim, se torna máscara: por fora, prestígio; por dentro, exaustão.
Porque talvez, entre vencer e permanecer inteiro, haja uma diferença que não está nos resultados, mas naquilo que conseguimos sustentar de nós mesmos no processo. Essa diferença não estampa troféus, não sobe em palanques, não ganha manchetes. Mas, no longo prazo, é o que define quem continua de pé e em paz.
Como escreveu Carl Jung, em uma de suas observações mais duras e reais:
“Aquilo a que você resiste, persiste. E aquilo que você conquista sem custo, pouco valor terá. Mas há conquistas que cobram um preço tão alto, que passam a nos possuir.”
E talvez, o verdadeiro enigma para os vitoriosos de Pirro não seja lamentar a guerra, mas aprender, na pausa entre uma conquista e outra, a perguntar com honestidade:
“O que ainda me pertence? O que sobrou de mim na vitória que alcancei?”
Às vezes, é nesse inventário silencioso que começa a mais difícil e a mais honesta das reconstruções.