WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
Enquanto Houver Vento
A vida, mar de ciclos largos,
de idas e voltas como ondas.
É travessia em águas fundas,
onde desembocam nossos rios.
Cada um de nós é barco:
com velas do que desejamos,
leme do que escolhemos,
escotilhas por onde sentimos.
E é no mar da própria alma
que se encontra o norte que sustenta a travessia.
Não são as velas que se exibem,
nem o brilho da madeira:
o que move é o que não pesa,
é a força sutil e verdadeira.
É o vento que não se vê,
mas molda o rumo e a deriva.
É a escuta do indizível,
o que vibra sem ter medida.
É a fé que não precisa altar,
o gesto que não cobra cena,
a bondade que não calcula,
o amor que se sustenta em essência plena.
Mas não é o mar que afunda,
é o que se infiltra por dentro.
A água externa é só convite;
entra quando cessa o atento.
Não por escolha direta,
mas por abandono distraído,
quando se esquece o cuidado
e o casco cede... enfraquecido.
Por isso, é preciso guardar o dentro,
como quem vela o que é sagrado.
O barco só resiste ao mundo
se o íntimo for habitado.
Redesenhar-se é nobreza.
Reaprender é sabedoria.
E se o vento muda o rumo,
que se mude... com poesia.
E se o casco enfim cansar,
e o céu pesar sobre os dias,
há sempre um porto de silêncio,
feito de pausa e alquimia.
Um lugar onde se recolhe
não o corpo, mas o ser.
Onde o silêncio não é ausência,
mas fermento do que virá depois.
Onde parar não é desistir,
é respirar antes de seguir.
É costurar o que rompeu,
firmar o leme por dentro
e preparar a alma para novos ventos.
A travessia é de todos.
Todos partem do cais.
Mas só aporta em porto seguro,
quem ouve o sopro que vem de dentro
e segue sem temer o que não controla.
E o que se leva do mar
não é conquista nem lembrança.
É o que se torna parte da alma,
como o eco que vive na concha,
como o azul que não sai da água,
como o mar que continua...
mesmo quando não se vê mais.