WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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Assinar em Branco

 

Minhas madrugadas sempre estiveram mais abertas a compreender aquilo que o dia, com sua pressa e barulho, costuma abafar. É nessas horas em que o mundo desacelera, ou em que algo em mim se desarma, que me volto com mais atenção aos grandes pensadores que enfrentaram, cada um à sua maneira, as sombras da existência. Leio-os como quem busca abrigo e confronto.

Hoje, foi sobre três deles que me debrucei: Agostinho, que amava com a alma e cria com intensidade; Descartes, que pensava com método para não naufragar na dúvida; e Foucault, que ousava revelar os abismos que escondemos sob o verniz da consciência. E assim, guiado por esse diálogo íntimo entre fé, razão e crítica, fui sendo conduzido ao reconhecimento de algo que escapa à pressa dos dias:

Há dias em que a alma parece mergulhar num silêncio espesso, como se estivesse sentada em casa, lendo sempre a mesma página de um livro já gasto, uma única folha diante da vastidão que o mundo tem a oferecer, como advertia Santo Agostinho. Nestes dias, é tentador acreditar que o caos é soberano e que nossas feridas clandestinas, como disse Foucault, nos espreitam em silêncio. Ainda assim, há algo em nós que resiste. Algo que não se contenta com a superfície. Algo que busca.

E então, como quem caminha entre vozes que ainda ecoam na memória da noite, fui encontrando, em cada um deles, um modo distinto de lidar com o mistério que é viver: um através da entrega, outro pela razão, e o terceiro pela inquietação crítica. Decidi, então, me aproximar de cada um, não para escolher quem tem razão, mas para escutá-los mais de perto, como se cada pensamento pudesse me abrir uma fresta no escuro.

Agostinho nos fala com o calor de quem ama. Para ele, o amor é medido por sua ausência de medida, como um rio que transborda por escolha própria. Amar é entregar-se. Ter fé, então, é assinar uma folha em branco, não por ignorância, mas por confiança no Autor. Uma entrega que não é alienação, mas coragem. E mesmo assim, o bispo de Hipona nunca negou o valor da razão. Ele a via como um farol que ajuda a iluminar o caminho da fé. Um equilíbrio delicado entre sentir e pensar, entre crer e compreender.

Descartes, por sua vez, ergueu a torre da razão em meio ao nevoeiro da dúvida. "Penso, logo existo", e talvez por isso tenha nos ensinado que dominar o pensamento é dominar a si mesmo. Ele via nos problemas difíceis o chamado à disciplina do raciocínio. Nenhum atalho serve quando a estrada exige firmeza. Mas é irônico perceber que sua estrutura racional nasce do mais profundo desconforto: a dúvida total. Descartes duvidava de tudo, até encontrar algo que não podia duvidar, o próprio ato de pensar. Não era frieza: era método. Um modo de não naufragar.

E então vem Foucault, com sua lucidez cortante, sussurrando verdades incômodas. Ele nos convida a encarar os monstros que guardamos trancados nas masmorras do íntimo. Somos seres complexos, contraditórios, frequentemente conscientes de nossos atos, mas inconscientes dos estragos que causamos a nós mesmos e aos outros. A crítica de Foucault é como um espelho que não perdoa: nele não vemos só o rosto, vemos as máscaras.

E entre essas três forças, fé, razão e crítica, descubro que habito um ponto de tensão contínua. Ora me sinto ancorado em convicções profundas, ora à deriva num mar de incertezas, como quem oscila entre o firmamento e o abismo. Às vezes, a fé me toma de assalto e tudo parece fazer sentido, até que a razão me interroga, ou a crítica me desnuda. Não sou síntese acabada de nada. Sou conflito em processo, labirinto em construção. E talvez a dignidade dessa experiência não esteja em encontrar estabilidade, mas em persistir no movimento, entre luzes e sombras, sem abdicar da busca.

Talvez por isso Agostinho tenha dito que ter fé é assinar uma página em branco e deixar que Deus nela escreva o que quiser. Mas o mais árduo não está apenas em assinar, e sim em aceitar o desenho que Ele traça, principalmente quando esse traço atravessa os desejos que secretamente guardamos. É nesses momentos que a fé deixa de ser conforto e se torna luta: entre a entrega que prometemos e o apego ao que sonhamos.

No fim, razão, fé e crítica não são linhas paralelas. São linhas que se cruzam no centro de nossas perguntas mais íntimas. A razão nos oferece chão, a fé nos convida ao salto, e a crítica nos lembra que até o chão e o salto precisam ser examinados. Talvez o viver mais inteiro esteja justamente aí: não em escolher uma dessas forças e rejeitar as outras, mas em habitá-las todas, com lucidez, com confiança, e com coragem suficiente para recomeçar sempre que alguma delas parecer ruir.

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 06/10/2025
Alterado em 06/10/2025
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