WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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A curva da sabedoria

 

Há um momento, inevitável e silencioso, em que deixamos de reconhecer a pessoa que um dia fomos. Não por vergonha, nem por vaidade, ou, quem sabe, não sempre por vergonha, mas muitas vezes sim. Mas porque, ao longo do caminho, algo em nós se alargou. E, nesse alargamento, antigos contornos se desfizeram, como as linhas de um desenho à lápis diante da chuva.

Talvez seja isso que o conhecimento faz com a alma: desfaz certezas, dissolve vaidades, derruba as colunas frágeis do “eu sei”. Aos poucos, aquele antigo “eu”, que caminhava altivo com a pequena chama da ignorância acesa no peito, se curva diante do incêndio silencioso da consciência. Sim, há algo de sagrado em perceber que sabemos pouco, e há algo de profundamente humano em continuar buscando mesmo assim.

Lembro-me das palavras de Kennedy: “Quanto mais aumenta nosso conhecimento, mais evidente fica nossa ignorância.” Há quem veja nisso desânimo. Eu vejo um convite. Um chamado para sair da superfície confortável e mergulhar nas águas fundas da existência. Porque só quem desce aos porões do próprio ser encontra, ali, a chave das verdades que importam.

Leonardo da Vinci, com sua poesia da natureza, dizia que as espigas sem grãos olham o céu com arrogância, enquanto as cheias curvam-se à terra, sua mãe. O saber, quando verdadeiro, é como essa espiga. Traz peso, mas não peso de vaidade. Peso de consciência. E consciência, quando amadurece, nos dobra. Faz-nos humildes. Torna-nos atentos aos silêncios, aos outros, à vastidão que nos cerca.

Platão diria que a coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento. E Confúcio completaria: a essência do saber consiste em aplicá-lo, uma vez possuído. Talvez por isso seja tão doloroso crescer em sabedoria, porque o conhecimento, ao contrário do que muitos pensam, não é um troféu. É uma responsabilidade. Um chamado à ação, à ética, à transformação.

E, nesse ponto, volto àquele “eu” de antes. O que ele fazia com o pouco que sabia? Julgava. Ostentava. Simulava. Como uma espiga seca apontando ao céu, sem nunca ter sentido o gosto da terra. Hoje, esse “eu” me observa de longe, talvez em silêncio, talvez em alerta. Não o nego. Ele foi parte do caminho. Mas já não nos reconhecemos.

Porque, agora, quando leio, ouço. Quando estudo, duvido. Quando aprendo, ajo. E cada novo saber me afasta das certezas e me aproxima das perguntas, essas eternas companheiras dos que vivem com a alma desperta.

O conhecimento não nos torna deuses. Nos torna servos da verdade, da justiça, da compaixão. E, nesse serviço, reside a mais rara das liberdades: a de não precisar saber tudo, mas de estar sempre disposto a aprender. Sempre com os pés na terra, como a espiga cheia. Sempre com os olhos no céu, como quem busca, não por vaidade, mas por necessidade de sentido.

Porque no fim, e talvez esse seja o maior mistério, saber é curvar-se.
E só se curva quem aprendeu, enfim, a amar o próprio pouco saber.

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 08/10/2025
Alterado em 08/10/2025
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