WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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Entre Perguntas, Pensamentos e Silêncios

 

Em um mundo embriagado por respostas rápidas, onde a pressa parece substituir a profundidade, é urgente reaprender o valor das perguntas. Voltaire, com seu olhar perspicaz sobre a condição humana, nos adverte: “Devemos julgar um homem mais pelas suas perguntas que pelas respostas.” Porque a pergunta verdadeira não é um mero pedido de informação. Ela não busca apenas preencher lacunas, ela escava. Ela abre abismos de reflexão. É o que move o filósofo, o cientista, o poeta, o juiz. É o que move cada um de nós, ainda que de maneira silenciosa, quando nos deitamos à noite com os olhos perdidos no teto e perguntamos, sem voz: “E se...?”, “Por quê?”, “Para quê?”

Mas perguntar não basta. É preciso pensar. E é aí que John Locke, com a sobriedade dos grandes empiristas, nos conduz ao essencial: “Ler fornece ao espírito materiais para o conhecimento, mas só o pensar faz nosso o que lemos.” O saber que não passa pela reflexão é como um banquete jamais digerido, alimenta de aparência, mas não nutre a alma. De que serve acumular livros, palavras, conceitos, se não os deixamos atravessar nosso juízo, se não os transformamos em parte de nós? Pensar é o gesto que transfigura a leitura em experiência, que transforma informação em sabedoria. É como lapidar pedras brutas até que brilhem, não nos olhos dos outros, mas no escuro dos nossos próprios porões.

E então, entre perguntas e pensamentos, chegamos ao silêncio, esse território tão mal compreendido. Para muitos, o silêncio é ausência, é vácuo. Mas para Aristóteles, é onde habita a maturidade. “O sábio nunca diz tudo o que pensa, mas pensa sempre tudo o que diz.” Vivemos numa era de excesso de voz e carência de escuta. Um tempo em que se opina antes de refletir, se responde antes de compreender. O verdadeiro sábio, porém, pesa cada palavra como quem mede o impacto de uma pedra lançada ao rio. Seu silêncio não é omissão, é delicadeza, é lucidez. É o espaço onde o pensamento termina de amadurecer antes de se tornar verbo.

Por ao menos três décadas, confesso, negligenciei esses princípios. Li pouco, ou li o que não florescia. Pensei pouco, ou pensei o que não devia. E falei muito, quase sempre antes de compreender. Mas a transformação, quando chegou, não foi repentina. Foi lenta, quase imperceptível, feita de pequenas inquietações acumuladas. E ainda está em curso. Mas houve um marco, um ponto de inflexão suave e determinante: Diva.

Sim, Diva. No nome e na essência. Uma mulher que não apenas carrega o nome de diva, mas que me ensinou o verdadeiro sentido da palavra em minúsculo: diva, no mais íntimo e simbólico dos significados, aquela que inspira. Que planta perguntas com o gesto, que convida ao pensamento com o olhar, que ensina a escutar a vida com o corpo inteiro. Foi ela quem, sem livros abertos sobre a mesa, sem aulas formais, sem discursos prontos, mas vivendo o que pensa e pensando com verdade, me ensinou a seguir essa trilha. Praticando Voltaire, Locke e Aristóteles, não com citações, mas com escolhas, despertou em mim o desejo de me tornar menos raso. Se bem que ela lê muito, devora livros com a mesma naturalidade com que respira, mas seu maior ensino vem do que transborda entre as linhas, do que vive antes de dizer.

Desde então, mecanismos de busca se instalaram em mim. Não os digitais, mas os internos. E passei a desejar o que antes me era indiferente: o sentido, a origem, o propósito. Não era fome, era uma ânsia serena, uma necessidade de tocar o que está por trás das aparências. Tudo isso nasceu do convívio com uma diva, dessas que não precisam de palcos nem de plateias, porque sua grandeza acontece no silêncio entre uma frase e outra.

E dói, confesso, quando percebo quantos, mesmo estando tão perto, atravessam a vida sem essa inquietação. São pessoas queridas, que me habitam pela memória e pelo sangue, meus amores sanguíneos, que caminham pelas margens do mistério como se a superfície bastasse. Que não se espantam mais, que não interrogam o mundo, que temem a dúvida como se ela fosse inimiga. O lamento se torna mais agudo quando se trata dos nossos. Porque o que lhes falta não é capacidade, é impulso. E sem esse impulso, a alma murcha, ainda que o corpo caminhe.

A curiosidade, essa centelha que nos move, é o que inspira as melhores perguntas e dá substância aos necessários silêncios. Sem ela, vive-se raso, mesmo que se grite alto. Falta o encantamento pelas essências, pelos significados que nos sustentam por dentro.

Assim, nessa trilha entre perguntar, pensar e calar, talvez resida o sentido mais nobre da existência. Porque, ao fim, não são as respostas que nos salvam, são as perguntas bem feitas. E, com sorte, uma diva que nos ensine a ouvi-las.

Hoje, carrego uma gratidão funda pelo meu despertar, tardio, imperfeito, mas real. E também um desejo: que os que estão por perto, e ainda dormem diante do espanto, também despertem. Que desejem, que busquem, que se permitam inquietar. E, na falta de uma curiosidade natural, que a vida lhes presenteie com uma diva, alguém que, pela presença e não pelo discurso, lhes desperte o sagrado desejo de compreender.

Talvez pareça utopia. Mas mesmo os sonhos mais altos começam com um pequeno desvio no olhar. E se um dia isso acontecer, se algum dos meus, com quem partilho laços e silêncios, acender em si a vontade de mergulhar nas perguntas essenciais, será como ver uma luz se acendendo dentro de um espelho. E, por fim, descobrir que as perguntas certas nunca estiveram ausentes, apenas aguardavam, pacientemente, que alguém ousasse vê-las.

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 09/10/2025
Alterado em 09/10/2025
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