WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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Levantei Atento, a Tempo.

 

Hoje cedo, despertei dentro do silêncio. Ele já estava lá, antes de mim, não como ausência de som, mas como presença delicada. Não houve pressa. Não por falta de compromissos, eles me esperavam, como sempre, mas porque o dia, antes de começar, parecia já saber que eu precisava habitá-lo com mais escuta do que fala.

Em vez de abrir arquivos e planilhas, abri minha playlist favorita, daquelas que carregam vozes antigas, letras que sabem permanecer. Canções do tempo em que música ainda era só canção, não grito, nem manifesto, apenas melodia e verdade.
Vieram algumas que me abraçaram como se já soubessem.
Mas foi “Poema”, na voz afiada e doce de Ney Matogrosso, que rompeu o tecido da manhã com exatidão poética.

Nem tudo no que a canção diz me traduz por completo, e talvez seja justamente aí que reside sua beleza. “Poema” não precisa coincidir comigo em tudo para me atravessar. É fragmentada, como quase tudo o que é verdadeiro. E desses fragmentos nascem reflexões que não pedem inteireza, bastam pedaços de sentido, como notas soltas que se encontram no ar antes de cessarem.

Naquele instante, meu pai voltou.
Voltou ali, quando ouvi “Do tempo que eu era criança / E o medo era motivo de choro / Desculpa pra um abraço ou um consolo”; mas não como quem retorna em cena com afeto doce ou palavras ternas. Voltou como presença que nunca se ausentou por completo, aquela que se manifesta mesmo quando não se nomeia.
Não foi uma memória enfeitada pela nostalgia, mas sim a lembrança sóbria de quem sabia estar, mesmo em silêncio.
Voltou no olhar que entendia mais do que dizia, nos gestos que não afagavam, mas amparavam com firmeza discreta.
Havia ternura na sua dureza, como se a rigidez fosse sua forma exata de cuidado.
Um modo silencioso, quase severo, mas certeiro. Como se dissesse: “não importa o caos, estarei”.

Talvez aí, nesse modo indireto de proteção, eu tenha sido moldado. Cresci aprendendo a oferecer doçura com espinhos, e firmeza com gentileza. Como quem equilibra contrastes sem perceber, como quem aprendeu que amar também pode ser vigiar, mesmo sem dizer.

Essa presença, embora já ausente, não desapareceu: transmutou-se. Hoje, quando algo em mim ameaça ruir, é essa figura que se impõe. Não como colo, mas como estrutura.

Mas esta não é, nem poderia ser, uma crônica sobre ele. É sobre o instante em que o mundo nos visita por meio da música. Sobre esse arrebatamento súbito que nos atravessa, que nos lembra que somos, antes de tudo, escuta e presença.
Sobre como a arte pode se tornar espelho de dentro: devolve aquilo que acreditávamos adormecido, e portal para algo maior.

“Poema” me trouxe mais do que a lembrança do pai. Trouxe os medos primordiais: o medo do tempo, da ausência, da própria sensibilidade vulnerável. Mas trouxe também o consolo que não se fala: a impressão de que há algo, ou alguém, que ainda sustenta o invisível. E é isso que ficou em mim: não apenas a presença de quem foi, mas a convicção de que nas letras, nas canções, posso descortinar também a presença graciosa de Deus. Que ali se faz compasso e sustento.
Que o momento, os pensamentos, o existir, tudo isso pode ser oração velada e gratidão silenciosa.

Como disse a canção, “eu hoje levantei atento, a tempo”, não de um pesadelo, mas a tempo de lembrar, de sentir, de perceber o invisível. A tempo de me tornar, por alguns minutos, alguém mais acordado do que distraído.

Talvez seja isso que eu espero, no fundo, de uma manhã assim: que ela marque o meu dia com uma consciência mais inteira, que esse instante de pausa ecoe como uma partitura silenciosa por dentro dos ruídos da rotina.

Agora, é hora de voltar.
A rotina me chama com sua linearidade crua, suas exigências pontuais, sua pressa desavisada.
Mas eu ficaria. Se me fosse dado o direito, viveria entre versos e melodias, onde o tempo se curva e as ausências florescem. Ficaria onde a vida acontece em profundidade e sem pressa.

Como não posso, ao menos levo algo desse instante comigo,
como quem carrega um acorde silencioso no peito, para que o dia, com toda sua pressa e peso, não me endureça por inteiro.
A música não terminou quando cessou a execução, porque o que ela despertou em mim, seguirá.

 

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 14/10/2025
Alterado em 14/10/2025
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