WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
Ainda Estou Aqui
Eu me lembro.
Não com a nitidez das certezas, que nunca tive, mas com a névoa tênue das memórias que resistem. Me lembro, sim, de quem eu era antes do mundo começar a sussurrar, e por vezes gritar, o que eu deveria ser.
Era um alguém sem nome definido, sem moldura, sem medida. Apenas um menino… ou um menino já de alma velha, querendo sonhar sonhos impossíveis antes mesmo de saber que o mundo exige boletos pagos e expectativas cumpridas.
Mas então veio o mundo.
Com seus manuais silenciosos, suas regras invisíveis, seus modelos prontos. Vieram os "comporte-se", os "não seja fraco", os "não erre tanto", os "não seja tanto". Vieram os silêncios que moldam mais do que os gritos. E eu fui.
Às vezes por medo, às vezes por amor. Outras, por pura expectativa, essa raiz sutil de tantos sofrimentos.
Fui quando não devia.
Fui quando o chão avisava e o peito implorava que não.
E deixei de ir quando deveria. Por teimosia, por orgulho, por negligência de mim mesmo. Quantos caminhos deixei passar por covardia disfarçada de prudência… quantas vezes escolhi o eco, quando o grito era necessário.
Essas também são as cicatrizes: as ausências que eu mesmo cultivei.
Busquei sentido como quem busca abrigo na tempestade.
Procurei fora o que talvez sempre estivesse dentro.
E quando achei, ou pensei ter achado, percebi que aquilo que encontramos raramente é o que procurávamos.
Porque, como disse o Buarque com aquela doçura cortante que só ele tem:
às vezes o que a gente procura, não é o que a gente procura. É o que a gente encontra.
E eu encontrei.
Encontrei vazios que não me cabiam, afetos que se desfaziam ao toque, e pedaços de mim escondidos em noites insones, canções mal cantadas, decisões mal decididas.
Sou muitos, Nietzsche sabia, e eu confirmo.
Sou os que acreditei que seria, os que me disseram que eu devia ser, e os que lutei para deixar de ser.
Sou também o que não fui e que talvez ainda possa ser.
Sou casa cheia: de vozes, de escolhas, de dúvidas.
Sou o menino que não dançava, mas flutuava entre pensamentos, perdido no quintal dos próprios devaneios. E sou o adulto que agora tenta lembrar o caminho de volta para aquele quintal.
Talvez viver seja isso: atravessar essa casa dos espelhos onde cada reflexo distorce, revela, nega ou devolve um pedaço esquecido.
Nem sempre a imagem que se vê é a que se é, e às vezes, é pior: é a que o mundo esculpiu no nosso lugar.
Mas chega um instante , e ele sempre chega, cedo ou tarde, em que se encara um espelho com coragem. E sem voz embargada, sem desculpas, se diz:
“eu me lembro.”
E lembrar, às vezes, é mais do que voltar.
É resgatar.
É reconstruir a partir das ruínas.
É olhar para o passado com os olhos da alma limpa e dizer: "ainda estou aqui."
Mais inteiro do que ontem.
Menos pronto do que pareço.
Mas agora, enfim, sou dono do que restou, e do que renasce.
Porque mesmo quando o começo falha, a lembrança nos devolve as cinzas quentes do que fomos, e nelas ainda arde a possibilidade de recomeçar , não onde tudo deu certo, mas onde a coragem insistiu em não acabar.