WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
A Hipocrisia dos Justos
“Não há santo sem passado, nem pecador sem futuro.” Santo Agostinho
Há séculos, Santo Agostinho nos advertiu: a santidade é construída sobre os escombros do erro, e o pecado não é sentença perpétua, é ponto de inflexão. A frase, que atravessou o tempo como uma flecha, continua a encontrar seu alvo nas entranhas da nossa hipocrisia social. Somos uma sociedade que atirou pedras e, por não se reconhecer nelas, segue atirando.
No Evangelho de João, capítulo 8, a cena foi brutal em sua simbologia e pungente em sua denúncia: uma mulher, flagrada em adultério, foi arrastada por escribas e fariseus até os pés de Jesus. Um crime capital. A lei mosaica era clara: ambos, homem e mulher, deveriam ser executados. Mas somente ela foi levada. O homem, que teria pecado em paridade, sumiu nas sombras do silêncio cúmplice.
Foi uma armadilha cuidadosamente montada, e Jesus a viu com nitidez. Não confrontou os homens com argumentos, nem invocou jurisprudência divina. Apenas se abaixou e escreveu no chão. E então disse, com a calma que desarma a fúria:
“Aquele que dentre vós está sem pecado, seja o primeiro que lhe atire pedra.”
Silêncio. Um silêncio que pesou mais do que qualquer rocha. Um a um, os acusadores se afastaram, a começar pelos mais velhos, talvez os mais versados na arte de errar.
Jesus sabia o que todos fingiam ignorar: a hipocrisia mora no coração dos que julgam com zelo seletivo.
A moralidade, como bem dizia Pascal, pode ser uma máscara para esconder o monstro e não um espelho para reconhecê-lo. E, como alertava Nietzsche, com desconfortante precisão, o moralismo social muitas vezes serviu mais ao desejo de controle do que à busca por verdade.
Falo também de mim.
Carrego comigo os rastros de escolhas e ações de quase vinte anos atrás. A Justiça, com seu compasso arrastado e silencioso, jamais me julgou, muito menos me condenou. E, no entanto, sigo submetido a um juízo mais severo e implacável: o do imaginário social, que não exige provas, não admite defesa, nem reconhece contexto. Um tribunal difuso, que julga por conveniência e condena por reflexo.
Porque a sociedade, no fundo, nunca buscou justiça. Buscou espetáculo. Quis um culpado, qualquer um, desde que permitisse que ela permanecesse na confortável posição de espectadora inocente. E o mais cruel é que o passado, quando alimenta o apetite coletivo pelo escárnio, nunca descansa. É exumado das sombras, revestido de ressentimento e exibido sob holofotes, não para reparar, mas para manter viva a chama do castigo moral.
Preso à lógica do linchamento emocional, o passado deixa de ser um ponto na linha do tempo. Torna-se estrutura. Não se arquiva, não amadurece, não se redime. Entra em rotação contínua, como uma engrenagem de memória condenatória, que converte cada erro em identidade e cada lembrança em sentença. O ontem passa a sustentar o hoje e moldar o amanhã, num ciclo perverso em que não se permite recomeço, apenas repetição.
A hipocrisia social construiu santos de vitrine e pecadores de vitral estilhaçado. Os primeiros tiveram seus passados engolidos pelo tempo. Os segundos, condenados à pena da lembrança perpétua, mesmo quando nenhuma sentença foi escrita em papel timbrado. Vivemos uma era de perdão seletivo e de memórias afiadamente convenientes.
E o que dizer de Santo Agostinho? Antes de ser santo, foi homem e dos mais falhos.
Teve educação cristã, mas entregou-se à vaidade, à retórica e à luxúria. Gerou um filho com uma amante. Seduziu-se pelas doutrinas dos maniqueus. Mas foi alcançado por duas forças que não se deixam vencer: o amor de sua mãe, Santa Mônica, em oração insistente, e a sabedoria de Santo Ambrósio, cujas pregações em Milão despertaram sua alma e sua razão.
A conversão de Agostinho, aos 32 anos, foi lenta e árdua. Lutou contra si mesmo, contra seus desejos, contra o mundo que havia cultivado. Mas encontrou a Verdade, não uma ideia, mas uma Pessoa: Cristo.
Antes de ser celebrado em altares, Agostinho enfrentou o que poucos têm coragem de encarar: a própria sombra. Ele não apenas admitiu suas quedas. Ele as escreveu, as expôs, as converteu em oração.
Agostinho caiu, mas levantou. Pecou, mas converteu-se.
E, mais importante, teve a coragem de olhar para si antes de apontar os outros.
Sua frase não é uma absolvição automática, é um chamado à honestidade interior.
Um convite à verdade, aquela que liberta, mesmo quando sangra.
E porque sua conversão não foi um estalo, mas uma travessia, ele pôde dizer , não como quem repete dogmas, mas como quem os viveu na carne: "Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova. Tarde Te amei! Trinta anos estive longe de Deus, mas, durante esse tempo, algo se movia dentro do meu coração. Eu era inquieto, alguém que buscava a felicidade, buscava algo que não achava. Mas Tu Te compadeceste de mim e tudo mudou, porque Tu me deixaste conhecer-Te. Entrei no meu íntimo sob a Tua Guia e consegui, porque Tu Te fizeste meu auxílio."
Agostinho não apagou seu passado, transfigurou-o.
Fez da queda, impulso. Da culpa, aprendizado. Do erro, matéria-prima para uma vida nova. E talvez seja esse o ponto em que a história dele se encontra com a minha.
Porque eu também caí. E me levantei, ainda que sob o peso de olhares que não esquecem, de vozes que não silenciam, de memórias que não me pertencem mais, mas que o mundo insiste em me devolver.
Não busco esquecimento, nem indulgência fácil. O que almejo é mais sutil e mais justo: a absolvição do tempo.
Que ele reconheça que não sou o mesmo que errou. Que me conceda o direito de ser julgado pelo que sou agora e não pelo que fui, quando ainda não sabia ser.
Quero que o tempo entenda que a consciência do passado já me cobrou com juros.
Que a dor da lucidez já me visitou noites demais.
E que ninguém que olhe sinceramente para dentro consegue sair intacto, mas pode sair melhor.
Que fique claro: não peço para ser chamado de santo. Mas peço, com a alma desarmada, o direito de não ser eternamente tratado como réu.
Se Agostinho, depois de errar tanto e tão fundo, encontrou a beleza da graça,
então talvez haja lugar também para mim, não no altar, mas na dignidade de seguir adiante, com a história em paz e o futuro em aberto.
Porque o tempo, se não serve para curar, não serve para nada.
E eu, como todo pecador, só desejo isso: a chance de não ser prisioneiro dos passos que já não posso desfazer, do caminho que me trouxe até aqui.