WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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O Produto, a Embalagem e o País que Nunca Chega

Uma reflexão amarga sobre o impasse político e institucional do Brasil

 

Dia desses ouvi uma frase que me marcou, não lembro ao certo de quem veio, mas certamente foi dita por alguém que viveu com intensidade o Brasil entre 2019 e 2022: “Jair Bolsonaro foi um produto bom dentro de uma embalagem ruim.”

Seu governo, embora marcado por embates verbais, postagens agressivas e discursos excludentes, sustentou resultados administrativos relevantes em diversas frentes. Paulo Guedes, à frente da economia, conduziu reformas estruturantes, imprimiu racionalidade ao gasto público e iniciou um processo de desburocratização que impactou positivamente o ambiente de negócios. O Banco Central, com autonomia finalmente consolidada, combateu a inflação com firmeza mesmo sob a pressão da pandemia e do choque global nos preços.

Tarcísio de Freitas, no Ministério da Infraestrutura, liderou uma gestão técnica exemplar: concessões bem-sucedidas, obras paralisadas que andaram, novas soluções logísticas que desataram nós históricos do país. Houve avanços também na área ambiental, com integração de dados de monitoramento e tentativas de reverter a imagem internacional deteriorada, embora muitas vezes prejudicadas pela retórica oficial.

Na área tecnológica, ampliou-se a conectividade em regiões isoladas. O Ministério da Agricultura manteve canais abertos com os grandes produtores, garantindo recordes de exportação mesmo em cenários adversos. E, nas relações federativas, mesmo em meio a atritos constantes, preservaram-se o repasse regular de recursos e o respeito à autonomia dos entes subnacionais, tanto que, mesmo derrotado nas urnas, Bolsonaro conseguiu eleger quase todos os nomes que apoiou ou indicou em estados-chave e no Congresso Nacional.

Mas o grande erro, e talvez a tragédia política de Bolsonaro, foi, de fato, a embalagem. Uma postura pessoal beligerante, marcada por desprezo ao diálogo institucional, comunicação voltada apenas à sua base mais radical e uma incapacidade de construir pontes com o centro político e com setores mais amplos da sociedade. Governou como candidato, não como estadista. Falou para a sua bolha, quando deveria ter falado à Nação. E foi aí que se perdeu.

Mesmo com resultados palpáveis, a embalagem ruidosa sufocou a qualidade do conteúdo. Boa parte da sociedade rejeitou não apenas o homem, mas também tudo que havia de virtuoso em sua gestão, influência, sim, de uma campanha eleitoral tendenciosa, marcada por proibições, censura seletiva e restrições incompatíveis com o ápice da democracia: o voto livre e consciente.

A rejeição veio por pouco mais da metade dos votos, num ambiente de tensão institucional crescente e evidente assimetria de tratamento.

No plano institucional, o protagonismo crescente de certos ministros do Supremo Tribunal Federal, especialmente Alexandre de Moraes, gera apreensão. A concentração de poderes investigativos, acusatórios e sancionatórios em um único magistrado, sem os contrapesos naturais do devido processo legal, corrói princípios essenciais do Estado de Direito. Pior: boa parte da sociedade assiste em silêncio.

Sartre, em Os Sequestrados de Altona, já advertia: "Detesto as vítimas quando elas respeitam os seus carrascos."

A perseguição implacável a Bolsonaro ilustra esse cenário. Ainda que seu inconformismo com o resultado das eleições de 2022 tenha sido ruidoso e, por vezes, juridicamente questionável, ele buscou resistir por meios previstos na Constituição, com representações, pronunciamentos e articulações políticas, jamais com tanques, armas ou tropas nas ruas. O discurso do golpe, repetido à exaustão, jamais encontrou substância real. O que houve foi resistência política, imprudente, sim, mas longe daquilo que se entende por ruptura institucional armada.

Enquanto isso, o governo que prometia reconstrução nacional avança perigosamente rumo ao retrocesso. A economia perde fôlego. Estatais, antes saneadas, hoje acumulam prejuízos superiores a R$ 9 bilhões, conforme dados do Banco Central. Em 2024, o governo já precisou destinar R$ 27 bilhões para sustentar essas empresas, uma cifra que remete aos tempos da velha política, quando interesses ideológicos e apadrinhamentos consumiam os recursos públicos.

A política externa, agora orientada por afinidades ideológicas, afastou-se do pragmatismo que caracteriza grandes nações. A crise diplomática com os Estados Unidos, nosso principal parceiro comercial, é fruto de gestos políticos impensados, motivados por conveniências internas, que colocaram em risco não apenas o comércio, mas também parcerias estratégicas em tecnologia, defesa e meio ambiente.

O país dividido entre dois extremos: um, ruidoso e desastrado na forma; outro, sorridente e corrosivo na essência. Nenhum representa a totalidade da Nação. Ambos se retroalimentam, reforçam a polarização, desumanizam adversários e inviabilizam qualquer construção de consenso.

O Brasil precisa de uma alternativa. De líderes que entendam que sua missão não é vingar eleitores, mas governar para todos, os que os elegeram, e os que não.

Mas o temor, cada vez mais palpável, é que essa alternativa não exista. Que o Brasil esteja condenado a escolher, eleição após eleição, entre o desastre que grita e o colapso que sussurra.

E talvez, no fundo, sejamos mesmo um país fadado a nunca chegar, nem ao centro, nem ao futuro.

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 16/10/2025
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