WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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Levantar da cama pra viver, e não pra resistir...

 

Há dias em que acordar já é um ato heroico.
Abrir os olhos, sentar na beira da cama, colocar os pés no chão, gestos simples, que deveriam anunciar o começo de mais um dia, mas que, para muitos, e não me excluo, soam como o início de mais uma batalha. Porque o que era pra ser vida virou sobrevivência.

Não há trégua.

Resiste-se à conta que vence, ao corpo que dói, ao trabalho que cansa, à relação que pesa. Resiste-se à falta, ao medo, à pressa. E, de tanto resistir, a gente quase esquece o que é simplesmente viver.

Mas a vida não tem dado pausa. É diagnóstico, é cobrança, é silêncio. É mais um “não dá”, é mais um “depois a gente vê”.
E, no fundo, eu costumo dizer, meio rindo de mim mesmo, que quando falo “vamos ver”, é porque não vou ver nada.
E se os outros são como eu, então a equação não tem desfecho: ninguém vê, ninguém faz, ninguém vive. A vida vai sendo adiada em pequenas parcelas, pagas com cansaço e esperança.

A esperança, aliás, parece estar sempre parcelada, em longas prestações, com juros altos e sem garantia de entrega.

E é aí que tudo se mistura: a busca por dinheiro, a perda da saúde, o medo do tempo, a pressa por um futuro que nunca chega. Como disse o Dalai Lama:

“O que mais me surpreende na humanidade são os homens. Porque perdem a saúde para juntar dinheiro. Depois, perdem dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem-se do presente de tal forma que não vivem nem o presente, nem o futuro. E vivem como se nunca fossem morrer… e morrem como se nunca tivessem vivido.”

A urgência, então, é esta: reivindicar dias que não sejam apenas de resistência.
Dias em que levantar da cama seja apenas isso, um começo tranquilo, e não o prenúncio de mais uma guerra.
Porque viver não deveria ser um fardo.
Viver deveria ser, ao menos de vez em quando, só... vida.

Sem sobrevivência no limite.
Sem medo.
Sem luta.
Só presença.
Só existência.
Só respiro.

E talvez, com sorte, um pouco de paz.

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 26/10/2025
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