WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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ESTADO PARALELO: CONSEQUÊNCIAS VISÍVEIS E CAUSAS NEGADAS
Uma crítica dura ao crime e, sobretudo, às engrenagens que o fomentam.

 

Debater segurança pública olhando para um único lado é confortável, e enganoso.

De um lado, o governador da principal vitrine da crise de segurança pública do país declarou, após mais de centena de mortes, que a megaoperação foi “um sucesso”, porque “de vítimas lá, só tivemos os policiais”.

A frase é de uma crueldade burocrática: o simples fato de haver agentes do Estado mortos já destrói qualquer ideia de êxito. Nenhuma operação que soma cadáveres, sejam eles de inocentes, de agentes ou de criminosos, pode ser celebrada. É a vitória do discurso sobre o luto, e o retrato da indiferença institucional diante do fracasso coletivo.

Do outro, um presidente da República, que as vésperas, movido por convicções ideológicas travestidas de compaixão, afirma que “o traficante é vítima do usuário”. A frase é moralmente distorcida e politicamente perigosa: inverte papéis, faz do algoz a vítima e do Estado o culpado. Ao tratar o crime como mero produto social, enfraquece o dever de punir e dilui a responsabilidade individual, inclusive a do usuário, que participa, ainda que indiretamente, da engrenagem que o próprio discurso tenta absolver. Quando a indulgência substitui a justiça, o poder público deixa de conter o crime para conviver com ele.

Ambos, cada um a seu modo, expõem a mesma falência: a incompetência do Estado em compreender e enfrentar o próprio colapso. Um celebra a morte como triunfo; o outro romantiza o crime como sintoma. Um exibe força sem direção; o outro compaixão sem consequência. No fundo, ambos reduzem a tragédia nacional a narrativa e, enquanto disputam a razão moral do desastre, a violência continua governando o que o Estado abandonou.

Nas ruas, a complacência ecoa. Durante uma corrida de aplicativo, este autor, ao instigar o motorista sobre a corrupção policial que, de forma reflexa, alimenta o tráfico e o poder do crime organizado, ouviu, com desconcertante naturalidade, que “a corrupção é compreensível, porque eles ganham pouco demais”.

A resposta, dita sem malícia, revela o grau de banalização ética que corrói o país: a justificativa moral do ilícito quando o infrator veste farda, toga ou terno. É a naturalização da corrupção como sobrevivência e, com ela, a aceitação tácita de que o Estado pode falhar, desde que o erro pareça humano.

Do outro lado da cidade, uma investigação revelou um major da PM pedindo ajuda a traficantes da Penha para recuperar um carro roubado. A fronteira entre o Estado e o crime já não é muro, é mesa de negociação.

O episódio recente no Rio é apenas o sintoma. A causa está nas cadeias de incentivos e omissões que atravessam polícia, Judiciário, política, sistema financeiro, contratos públicos e planejamento urbano. Ser duro com o crime exige, ao mesmo tempo, ser duro com as condições que o tornam lucrativo.

E não há nada a ser comemorado, nem exaltado, quando o que se vê é o resultado da mesma doença com novos sintomas. O Estado reage às consequências, mas continua ignorando as causas. Celebra prisões, operações e confrontos como se fossem vitórias, mas não percebe que está apenas administrando o colapso.

De um lado, governos que se dizem “de ordem” apostam na força bruta e exibem estatísticas como troféus; do outro, administrações que se dizem “sociais” repudiam a violência, mas não atacam o estopim, a ausência de políticas estruturantes, o abandono urbano, a desigualdade que recruta o crime todos os dias. O resultado é o mesmo: um país que finge governar o caos enquanto o caos governa o país.

É nesse terreno fértil que floresce o ecossistema do poder paralelo, sustentado pela ineficiência, pela corrupção e pela indiferença institucional.

O tráfico aprendeu com a milícia que o verdadeiro poder não está apenas nas drogas, mas na gestão do território. Observou o modelo de domínio comunitário, de cobrança de taxas e de controle de serviços e o replicou. Em contrapartida, a milícia, que surgiu como um poder paralelo sob o pretexto de combater o tráfico, descobriu que associar-se ao inimigo era mais lucrativo do que enfrentá-lo. Hoje, ambos se confundem: compartilham armas, informações, influência política e lucros. São faces diferentes de uma mesma estrutura que se sustenta pelo dinheiro, pela impunidade e pelo medo, o tripé que move o submundo do poder.

Facções como o Comando Vermelho (CV) no Rio e o Primeiro Comando da Capital (PCC) em São Paulo deram origem a novas siglas, filhotes do mesmo ventre, que se expandem pelo país com o mesmo propósito: converter o crime em poder econômico e bélico onde o Estado não chega. São organizações que compreenderam, com frieza estratégica, que dominar o território é mais rentável e duradouro do que dominar o vício, muito embora não possam renunciar a ele A droga continua sendo o motor simbólico e financeiro que movimenta o sistema: o vício é o produto, o usuário é o cliente, e, em certa medida, o combustível que mantém a engrenagem girando.

Mas o que antecede esse cenário de barbárie não é apenas o crime, é o sistema que o alimenta. Por trás de cada fuzil apreendido, de cada cadáver deixado nas vielas, nos becos e agora também nas matas, há uma cadeia de cumplicidades e omissões que começa nas instituições e termina na esquina.

A corrupção sistêmica é a causa invisível que atravessa o país como corrente subterrânea. Ela contamina a polícia, que quando não é negligente e incompetente, é corrupta; e quando não é corrupta, é morosa, burocrática e arbitrária. É preciso, contudo, fazer justiça aos muitos profissionais que honram a instituição e arriscam a vida com grandeza, embora reste a dúvida, incômoda e crescente, se eles realmente são maioria, como se apregoa aos quatro cantos.

A Justiça, quando não é negligente, é corrupta; e quando não é corrupta, é morosa, burocrática e tardia. Em ambas as formas, trai sua função essencial: proteger o cidadão, não a conveniência. Mas, quando funciona, mostra que ainda é possível conter o colapso, restituindo à lei o seu sentido de amparo e limite, e lembrando que o poder só é legítimo quando serve ao justo, não ao útil. E, justamente por isso, quando se corrompe, deixa de ser instrumento de equilíbrio para se tornar o próprio crime institucionalizado, legitimado por toga e timbre oficial.

Nada disso é ilação. É o que permeia as manchetes diárias do país: juízes investigados por venda de sentenças ou por conluio com advogados; promotores omissos que transformam a inércia em blindagem; delegados e agentes policiais flagrados em esquemas de corrupção, extorsão ou repasse de informações a facções; oficiais coniventes que silenciam diante do desvio de conduta. É a prova reiterada de que a falência é estrutural, não episódica: um corpo institucional corroído por dentro.

O sistema político, por sua vez, é o espelho dessa decomposição. O Legislativo, fragmentado entre interesses e ideologias de ocasião, converte-se em um balcão de trocas onde se legisla mais por conveniência do que por convicção. Muitos de seus membros transitam entre escândalos de corrupção, inquéritos abafados e discursos moralistas proferidos sob a proteção da imunidade parlamentar. E quando não há corrupção direta, há a deformação institucional das emendas parlamentares impositivas, utilizadas de forma indiscriminada para colocar cabresto no Executivo e transformar a governabilidade em moeda de troca nos governos, seja qual for o espectro ideológico. Porque, no fim, direita e esquerda divergem no discurso, mas convergem no método: o poder continua sendo exercido como negócio, não como dever.

O Executivo, em todas as suas versões recentes, é a face mais visível da mesma engrenagem. Da direita à esquerda, muda o discurso, mas não o apetite: o poder continua sendo o fim, não o meio. Cada governo herda a promessa de reconstrução e entrega a mesma fome de permanência, a mesma disposição para pactuar com o que deveria enfrentar. A máquina estatal, convertida em instrumento de autopreservação, serve menos à República e mais ao projeto de quem a ocupa. A alternância de poder já não simboliza renovação, é apenas a troca de mãos que seguram o mesmo banquete

No topo, o Supremo Tribunal Federal, guardião da Constituição, oscila entre a toga e a tribuna. Sem uniformização de entendimento, multiplica decisões que mais confundem do que consolidam, aproximando-se perigosamente da lógica de um segundo parlamento, onde cada voto reflete menos a norma e mais a convicção individual de seus ministros. O resultado é a erosão da autoridade moral da Corte e o esgarçamento da própria ideia de Justiça.

O sistema financeiro fecha o ciclo com a elegância do crime sofisticado: oculta, movimenta e legaliza o dinheiro sujo que nasce da propina, da extorsão, do tráfico e das milícias. Entre planilhas e paraísos fiscais, o capital ilícito ganha legitimidade e retorna ao sistema político em forma de doação, influência ou silêncio comprado.

É assim que se perpetua o Estado paralelo, sustentado pela ineficiência, pela corrupção e pela indiferença. O tráfico e a milícia são seus braços visíveis; o dinheiro, sua corrente sanguínea; e a omissão, seu oxigênio.

Combater apenas as consequências, portanto, sem tocar nas causas, é perpetuar o colapso, e isso torna igualmente cúmplices tanto os que comemoram cadáveres como medida de “eficiência” quanto os que se limitam a criticar em retórica vazia, sem propor ou exigir mudanças estruturais. Celebrar operações que deixam mortos é masoquismo institucional; reduzir tudo a um bordão de protesto moral, sem enfrentar as redes de poder que financiam e abrigam o crime, é hipocrisia política. Ambos alimentam o mesmo monstro: um país que prefere fingir que age a assumir a obrigação de transformar a raiz do problema.

E no fim, o desfecho não é de esperança, mas de confissão coletiva. Porque este autor, como tantos brasileiros, também se reconhece parte desse sistema, seja por omissão, por resignação, ou pelo voto que ajuda a mantê-lo de pé. Talvez este seja o retrato mais cruel: um país que, cansado de se decepcionar, aprendeu a conviver com a própria ruína.

Mas esta é apenas a reflexão de um brasileiro sem pretensões políticas, mas profundamente politizado, que insiste em acreditar que pensar criticamente ainda é um ato de resistência.

Como advertiu Nietzsche, “quem luta com monstros deve cuidar para não se tornar um deles; e se olhas por muito tempo para o abismo, o abismo olha de volta para ti.”

O Brasil tem fitado o seu abismo há décadas, político, moral e social, e já começa a se reconhecer nele. Pensar, nesse cenário, não é um gesto de superioridade, mas de preservação da lucidez, o último refúgio possível diante do colapso ético que nos cerca.

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 01/11/2025
Alterado em 02/11/2025
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