WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
Fantasmas Não Sangram
É muito mais difícil matar um fantasma do que matar uma realidade, dizia Virginia Woolf, com aquela precisão cirúrgica que só os que caminham entre o visível e o invisível conseguem ter. E como ela tinha razão. A realidade é matéria: quebra, queima, afunda. Um corpo é vencido pelo tempo. Uma pedra, pela erosão. Uma casa, pelo abandono. Mas o fantasma, ah, o fantasma, esse vive do que não se vê, do que não se toca. Habita os interstícios da memória, se esconde atrás das palavras que não foram ditas, dos gestos que não foram feitos.
A realidade pode ser confrontada, desafiada, documentada. Podemos nomeá-la, debatê-la, fotografá-la. Mas o fantasma é um sopro entre ideias, um vulto que atravessa séculos e se aloja onde menos esperamos: no medo herdado, na vergonha ancestral, na ausência que ninguém explica.
Os fantasmas não morrem porque não nasceram no chão. Eles são filhos do pensamento, da culpa, da esperança e da dor. Enquanto houver quem os lembre, quem os repita, quem os tema, persistirão.
A verdade é que os fantasmas são mais resistentes do que as verdades. Porque uma verdade pode mudar: basta uma nova prova, um novo olhar. Mas um fantasma? Um fantasma se nutre da ausência de prova, da escuridão do porão emocional onde a razão não chega. Ele vive onde a luz da lógica não toca. Ele é o eco daquilo que talvez nunca tenha acontecido, e ainda assim doeu.
E há fantasmas que escolhem as casas em que habitam: ideias fixas, ressentimentos, identidades feridas, promessas não cumpridas. Alguns nos perseguem como sombras, outros nos habitam como religião. Há os que sussurram e os que gritam, os que velamos em silêncio e os que nos expõem ao escárnio do mundo.
Matar um fantasma? Não se mata com armas, nem com leis. Porque ele não sangra, não se curva, não se submete. É imune à força e ao decreto. Tudo o que é matéria falha contra o que é ausência. O fantasma só deixa de existir quando perde sua função, quando aquilo que o sustenta dentro de nós se dissolve. Às vezes, por meio do perdão. Às vezes, da consciência. Outras, pelo cansaço de carregar o invisível.
E talvez, no fim, não seja preciso matá-lo. Talvez seja preciso apenas reconhecê-lo. Dar-lhe um nome. Ouvir sua história. E então deixá-lo partir.
Porque os fantasmas, no fundo, só querem isso: descanso.