WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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Textos

Entre a mudança e o nada

 

Nada é permanente, exceto a mudança. Assim começa a respiração do mundo.
Tudo o que vive, vive em transformação.
Somos instantes que se refazem, traços que se redesenham sem cessar.
Mudamos a pele, os gestos, os nomes com que nos chamam.
Mudamos os sonhos, os medos, os silêncios.
Mudamos a fé, os olhos com que olhamos o mundo, o modo de pedir colo ou de suportar a solidão.
Mudamos mesmo quando tentamos ficar.
E ao mudar, morremos um pouco, como folhas que caem para dar lugar a outras, como a última nota de uma canção que silencia para que outra possa nascer.
Mesmo o que parece eterno, dança em novas formas:
quando não muda o amor, muda a forma de amar;
quando não muda o desejo, muda o lugar para onde ele aponta.

 

Cada passo é um adeus disfarçado de avanço.
É despedida do que éramos no instante anterior.
Cada encontro é começo e fim do próprio começo,
porque ao começar algo, algo já termina em silêncio.
Cada volta é um recomeço, mas também é um desvio do caminho que ficou para trás.
Nada permanece ileso ao tempo.

 

E são esses os seus sintomas:
movimento, desgaste, renascimento, desdobramento, perda, reinvenção, desvio, aceitação.
A vida pulsa no que se transforma.
O que resiste à mudança, se quebra.
E viver, talvez, seja justamente isso: mudar sem cessar, sem deter-se por medo da morte.
Pois a morte, quando chega, silencia tudo, inclusive o medo.
E se ela silencia, é porque já não estamos para ouvi-la.

 

Por isso é que Epicuro surge, calmo como a noite sem vento.
A morte, diz ele, não é nada.
Ela não sangra, não corta, não pesa.
Ela apenas não é.
Quando vivemos, ela está ausente.
Quando ela chega, já não estamos.
Ela não conversa com os vivos nem discute com os mortos.
A morte não dói. O que dói é a memória do que poderia ter sido.
A morte não assombra. O que assombra é o apego ao que não se pode deter.
São esses os seus sintomas:
silêncio, ausência, neutralidade, cessação, esquecimento, fim sem resposta.
Ela não cobra, não pune, não premia. Apenas encerra.

 

E no intervalo entre o fluxo e o fim,
no vão entre o vir-a-ser e o deixar de ser,
habitarmos esse lapso é o que nos torna humanos.

 

Não há beleza nisso, há verdade.
Simples. Crua. Serena.
Como a água que escorre.
Como a luz que se apaga sem pressa.

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 09/11/2025
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