WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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"O dia em que toquei a Liberdade"

 

E o que é liberdade? Você pergunta.
Sêneca respondeu, antes de mim:
“Significa não ser escravo de nenhuma circunstância, de qualquer constrangimento, de qualquer chance.”

 

Faz um tempo exato,
um ciclo completo de renascimentos diários,
desde que algo em mim, ou ao redor de mim, começou a se mover de forma sutil, quase imperceptível.
Não foi uma ruptura com estilhaços,
mas um estremecimento íntimo,
como o farfalhar de folhas antes da mudança do vento.
A intuição de que algo vinha de longe, e também de dentro.

 

Naquela manhã de um ano atrás, um desconforto doce me atravessou.
Como se o corpo estivesse se lembrando de algo que a mente ainda não sabia.
Havia leveza demais no ar que era pesado.
Um aviso, talvez.
Um prenúncio com cheiro de alvorada.

 

À medida que o dia avançava, ela se revelava.
Primeiro, em forma de pressentimento, um sopro inquieto que pairava sem nome, mas já habitava.
Depois, veio através de palavras.
Poucas, mas limpas.
Palavras que não pediam compreensão, apenas escuta.
Era como se a própria realidade tivesse encontrado voz.
E, ao ser dita, tivesse sido nomeada:
Liberdade.

 

Mas foi somente quando o dia seguinte caminhava para o fim,
quando a luz já era mais ouro do que sol,
que eu a toquei.

 

Toquei a Liberdade, não com as mãos, mas com o corpo.
No corpo, foi dançarina.
No coração, foi terremoto.
Na pele, foi marca.
Na alma, foi o grito que, há muito, já não suportava calar.

 

As cercas visíveis, os corredores sem janelas, não caíram, se dissolveram, como miragem diante da necessidade incontornável de ser livre.
Não porque o mundo mudou, mas porque, ao tocá-la, algo em mim se reconfigurou. Como se o toque não apenas despertasse,
mas redesenhasse em silêncio a nova forma de estar no mundo.
Meus pés, antes imóveis, habituados à espera,
recordaram o gesto antigo de caminhar.
E caminhar, enfim, passou a ter direção.

 

As circunstâncias que um dia me fizeram desaprender o caminho até mim mesmo,
que apagaram meu nome dos mapas e das agendas,
que me moldaram em sobrevivência,
não para viver, mas apenas para resistir ao tempo e às ordens;
naquele dia, desocuparam o território árido da sobrevivência.
E, pela primeira vez em muito tempo,
voltei a habitar o verbo existir.

 

Depois de uma volta inteira da Terra em torno do sol, ela ainda está.
Não com o fulgor do toque, mas como presença que não se apaga.
Substância invisível que me compõe,
brasa que não pede vento,
fio de sentido que permanece conduzindo meus passos.

 

Mas esta crônica é sobre aquele tempo irrepetível,
o breve território onde o toque aconteceu,
e tudo o que era limite virou passagem.
Foi marco.
Ali, algo se alinhou
entre o que eu era e o que eu precisava ser,
como se, por um instante,
o passado e o porvir se reconhecessem no presente
e, em silêncio, concordassem:
era tempo de romper a forma antiga
e deixar que algo em mim transbordasse.

 

E o que é liberdade? Você pergunta.
Hoje, respondo não com ideias,
mas com a memória do corpo e a verdade da pele.
Sêneca, com a lucidez dos grandes pensadores, talvez soubesse o que é a Liberdade, ao menos com o olhar da razão. Mas talvez não tenha sentido o que é tocá-la.


Eu a toquei!
Eu a senti atravessar o corpo como luz sem origem,
como calor antigo que desperta células adormecidas.
Porque há um saber que nasce da razão,
mas há outro que só se revela quando o corpo também compreende.


E foi naquele instante, quando ela se fez presença viva em mim,
que entendi:
Liberdade não é apenas o contrário da prisão.

É o instante em que, ao tocar o que antes era miragem,
a existência finalmente se acende, e o viver deixa de ser adiamento.
É quando o tempo, já sem grilhões,
não nos prende, mas nos devolve a nós mesmos.
É quando, por um milagre íntimo e irreversível,
deixamos de apenas resistir, e nos tornamos inteiros.

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 21/11/2025
Alterado em 22/11/2025
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