WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
O Agora das Crianças
Somente agora, quando alcancei o status de avô, é que, observando meus netos, pequenos mundos em movimento, e vendo o quanto são imersos no agora, tão presentes no instante como se nada mais existisse, é que me ocorreu a seguinte pergunta: seríamos capazes de viver inteiramente no presente?
Talvez não. Talvez sejamos náufragos do tempo, sempre arrastados entre o que já foi e o que ainda não veio. A memória nos prende com suas correntes de culpa, saudade ou glória. O futuro nos acena com promessas e temores. Estamos sempre partindo, sempre chegando, mas raramente sendo.
E então olhamos para as crianças. Pequenos deuses do instante.
Não têm passado, nem futuro. Não calculam, não projetam, não se arrependem. Elas são, simplesmente são, enquanto pulam na poça, desenham no muro, riem de vento ou choram de fome. Suas almas estão inteiras no momento, sem fragmentos, sem dúvidas. Elas não dividem o tempo, não o medem: o tempo é um brinquedo em suas mãos.
Nós, adultos, perdemos isso. Nos educaram a viver em função do depois.
Depois da escola. Depois do trabalho. Depois da aposentadoria. E, quando damos por nós, o presente virou um campo de passagem, não de permanência. Como se respirar fosse apenas uma pausa entre dois compromissos.
Mas e se pudéssemos retornar?
Não à infância, mas ao estado de presença.
E se o simples ato de abrir a janela pela manhã fosse vivido como uma revelação?
E se os olhos de quem amamos fossem contemplados como o céu se contempla: vasto, silencioso, infinito?
Viver inteiramente no presente talvez não seja possível, não como regra, não como hábito constante. Mas é um exercício, um gesto de rebeldia contra a pressa.
É olhar uma criança e aprender com ela: o mundo não se explica, se vive.