WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
Pra onde vão os anos?
Dias desses, eu assistia a um filme, o título já não me lembro, porque uma frase tomou conta do meu pensamento antes que os créditos subissem. Surgiu num diálogo qualquer, sem música dramática, sem câmera lenta, sem aviso:
"Pra onde vão os anos?"
Foi como se o filme tivesse pausado por dentro. A pergunta não era apenas do roteiro, era minha, era do mundo, era do tempo, esse velho conhecido que passa por nós em silêncio, mas nunca revela para onde vai. Fiquei ali, imóvel, como quem se dá conta de que envelhece não de um dia pro outro, mas de dentro pra fora.
Os anos não têm corpo, mas deixam rastros. Estão nos olhos cansados de quem já viu demais, no espelho que não mente, nos sorrisos que hoje carregam rugas como medalhas. Estão nos armários abarrotados de roupas que não servem mais, nas cartas amareladas que ninguém lê, nas músicas que ainda sei de cor, embora tenha esquecido porque choro quando tocam.
Heráclito, o filósofo do devir, me sussurra que “ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”. Talvez porque o rio muda, talvez porque quem se banha também já não é o mesmo. Os anos são esse rio. Escorrem, escavam, levam. Levam.
E o que deixam? Memórias e às vezes, só o gosto agridoce do que não foi. Eu monto álbuns, celebro aniversários, guardo datas como quem tenta segurar areia entre os dedos. Mas mesmo os mais belos momentos são como pássaros: pousam, encantam, e voam sem pedir licença.
Pascal dizia que “a infelicidade do homem vem de não saber ficar quieto num quarto”. Talvez porque, quando estamos em silêncio, ouvimos o tique-taque do que já passou e nos perguntamos: pra onde fui enquanto a vida ia? Porque a vida vai, mesmo quando a gente para.
Talvez os anos não vão a lugar algum, talvez fiquem todos aqui, alojados na alma feito cicatriz, feito tatuagem invisível. Não morrem. Apenas se recolhem em cantos secretos da minha história, prontos para me visitar quando menos espero: no cheiro do café da infância, no som de uma gargalhada que me lembra alguém que já se foi, no susto de encontrar uma fotografia esquecida no fundo de uma gaveta.
Nietzsche, resgatando Heráclito, me lembra que “o tempo é uma criança brincando com dados”. Tudo muda. Tudo recomeça. Tudo escapa das mãos, e ainda assim insiste em ser vivido.
Pra onde vão os anos?
Vão para dentro de mim.
São a matéria do que sou, e também do que já deixei de ser. São os capítulos que não posso reler, mas que continuam escrevendo a página de hoje. Os anos vão, mas suas pegadas escrevem o caminho. E talvez a pergunta, afinal, seja menos sobre destino e mais sobre companhia: com o que, ou com quem, escolhi atravessar o tempo?
Talvez a resposta seja esta: os anos não se perdem. Apenas se transformam em mim.
E eu… sigo indo com eles.