WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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Solução permanente para um problema temporário

 

Recentemente, fui surpreendido por uma inquietação silenciosa: por que existe uma campanha dedicada exclusivamente à prevenção do suicídio? Por que um mês inteiro, o setembro, é vestido de amarelo, como um chamado coletivo à atenção, ao cuidado, à escuta?

No início, confesso que a pergunta me veio como curiosidade distante. Mas bastou que eu a deixasse ecoar com mais profundidade para perceber que havia algo maior ali, algo que minha até então antiga indiferença havia me impedido de enxergar. Talvez eu não quisesse ver. Talvez fosse mais confortável não me aproximar da dor que não era minha. Mas, ao refletir, entendi: o simples fato de que essa campanha existe já denuncia a urgência de um tema que, apesar de presente, ainda é muitas vezes silenciado.

Fala-se com frequência sobre a ideia de uma “solução permanente para um problema temporário”, especialmente no contexto das campanhas de valorização da vida, como o Setembro Amarelo. A frase impacta, não por oferecer resposta, mas por escancarar um paradoxo doloroso: a escolha definitiva feita, muitas vezes, num instante em que tudo parece sem saída. Mas quem sente essa dor sabe, ou talvez nem consiga saber naquele momento, que não se trata de algo simples, contornável ou racionalizável.

A dor pode se tornar um lugar tão opressivo que distorce toda a realidade ao redor. E não é com frases feitas ou otimismo apressado que ela se desfaz. A única verdade que se pode afirmar com alguma serenidade é que o tempo, esse elemento quase imperceptível enquanto sofremos, às vezes age de forma sutil, discreta, quase invisível, redesenhando a paisagem aos poucos, como quem não tem pressa. Mas quando a dor é intensa, essa promessa de transformação parece inalcançável. E é exatamente aí que reside o perigo: no instante de maior desamparo, quando o peso é insuportável, é que frequentemente se toma a decisão mais irreversível.

Talvez seja porque, nesses momentos, o horizonte parece fechado. A mente cansada já não distingue o que é passageiro do que é permanente. A tristeza toma forma de eternidade, e tudo o que se vê é ausência de saída. Só que existe um engano cruel nessa percepção: nem tudo o que dói agora continuará doendo amanhã.

Há um provérbio chinês que, de tão simples, quase passa despercebido, mas carrega uma serenidade rara: “Se o problema tem solução, não esquente a cabeça, porque tem solução. Se o problema não tem solução, não esquente a cabeça, porque não tem solução.”

Há um tempo para enfrentar e um tempo para aceitar. E há, sobretudo, a necessidade de reconhecer que nem toda dor exige resposta imediata. Às vezes, o que ela exige é apenas que a gente aguente mais um pouco. Que não apresse o juízo. Que não feche o livro no meio da história.

E se engana quem pensa que isso se aplica apenas à ideia da morte. Essa lógica de soluções definitivas para crises momentâneas está por toda parte. Às vezes, ela se infiltra em um relacionamento que tinha tudo para florescer, mas se desfaz por impulsos, por mágoas não digeridas, por silêncios mal interpretados. Às vezes, está na desistência de um projeto profissional, motivada por um revés que, com mais tempo e perspectiva, talvez fosse apenas um capítulo, e não o fim da trajetória.

Quantos caminhos deixamos de trilhar por acreditarmos, no calor do desânimo, que o obstáculo é insuperável? Quantas amizades duradouras se perderam por um orgulho breve, por um gesto mal compreendido? Quantos sonhos foram arquivados por medo do fracasso, quando o fracasso era só parte do aprendizado?

O problema temporário se mascara de sentença definitiva. E nós, por pressa ou por dor, o tratamos como se fosse incontornável. Mas o tempo tem uma paciência que a dor desconhece. Às vezes, basta esperar um pouco mais. Às vezes, basta deixar passar a tempestade para que a paisagem volte a se revelar, diferente, sim, mas ainda cheia de possibilidades.

Fazer essa reflexão hoje, com mais lucidez e menos distância, é uma forma de reconhecer que há muitas dores silenciosas ao nosso redor. E que nem sempre o sofrimento se anuncia em gritos, muitas vezes ele se esconde em sorrisos, em rotinas, em silêncios polidos. Por isso, talvez o mais urgente não seja ter respostas, mas cultivar presença. Olhar com mais atenção. Sentir com mais generosidade. Pensar com mais profundidade antes de julgar.

Porque, no fim, todos nós estamos sujeitos a cair na tentação de encerrar capítulos que, com mais tempo, ainda poderiam se transformar em histórias belas. E essa, talvez, seja a parte mais humana da nossa fragilidade, mas também a mais humana da nossa esperança.

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 26/11/2025
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