WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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Tabacaria e o que permanece

 

A madrugada não me deixou dormir.
Mas não era insônia: era um chamado.

 

Abri o livro por acaso, ou por destino, e reencontrei Tabacaria,
como quem encontra um espelho num cômodo esquecido da alma.
O poema não me falou de um outro:
falou de mim,
e de tantos que poderiam ter sido.

 

Não sei qual era a dor de Pessoa, se vinha da alma, da carne, ou da lucidez demais.
Mas sei que, ali, entre versos que outros poderiam chamar de desassossego,
eu encontrei impulso.

 

Não impulso eufórico, desses que se disfarçam de alegria,
mas um impulso firme, silencioso:
o de reconhecer a vida, mesmo quando ela parece velada.

 

Porque, enquanto lia, fui invadido por pensamentos estranhos e familiares,
sensações que parecem viver em muitos, mas que raramente são ditas em voz alta:
uma espécie de cansaço antigo, de sonho guardado demais,
de silêncio que já virou parte da respiração.
Pensei em tudo o que não se vê, mas pulsa.
Na vontade quieta de não precisar provar mais nada.
Na lembrança de algo que talvez nunca tenha existido.
Na dignidade das coisas simples.
No consolo de apenas estar, sem precisar ser extraordinário.

 

E pensei em mim.
Nos caminhos que não caminhei.
Nos começos que não vingaram.
Nas partes de mim que ficaram pelo caminho e que, por muito tempo, chamei de perda.

 

Mas o que poderia ser lamento, não é.
Porque percebo, agora, nesta noite ainda escura,
que cada não, cada pausa, cada desvio, me trouxe exatamente até aqui.
E que isso basta.

 

A lição que Tabacaria me oferece, entre dores e metáforas,
é que não ser tudo não é o mesmo que não ser nada.
Que há grandeza em quem permanece,
em quem segue apesar da falta de aplausos,
em quem acorda e enfrenta o dia sem precisar explicar seu valor ao mundo.

 

Pessoa disse “Não sou nada. Nunca serei nada.”
Mas também disse:
“À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

 

E é isso que ecoa em mim agora:
não o vazio, mas o espaço.
Não o desassossego, mas o reconhecimento:
sonhar não é negar a realidade, é não se abandonar a ela.
Sonhar, às vezes, é apenas manter de pé a dignidade do possível.
É guardar no íntimo a centelha de algo que ainda não se fez,
mas que, mesmo que nunca se faça, nos mantém acesos.

 

E isso, eu aprendo, não é utopia.
É resistência.
É consciência.

 

Nesta noite que se transforma em manhã,
entendo que a ausência de glória não anula a profundidade de existir.
Que viver, de verdade, talvez seja mais sobre sustentar-se de pé
do que sobre brilhar.

 

Tabacaria não me deu respostas.
Mas me deu algo maior: consciência.
E com ela, ganhei leveza.
E com a leveza, os passos para um bom dia.

 

O dia começa a nascer.
E não me levanto apenas para atravessar mais uma manhã.
Levanto com a consciência tranquila de quem escolhe estar inteiro,
sem pressa de ser mais,
mas com a dignidade de permanecer.
E sei, mais do que nunca,
que tenho em mim todos os sonhos do mundo,
não como fuga,
mas como direção.

 

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 28/11/2025
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