WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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“Escrevo-me”

 

Eu te escrevo porque te conheço.
Conheço tua pressa, teu ardor, tua inquietação que se veste de desejo e te convence de que só o “mais” te basta.
Já te vi beber do cálice da euforia como se ali estivesse a eternidade, e desperdiçar o dia seguinte pagando o preço da própria sede.

Por isso te escrevo. Não para te domar, mas para te lembrar do que esqueces sempre que te inflamas.

Tu chamas de prazer aquilo que te oferece intensidade, mas não permanência.
Chamas de liberdade aquilo que, no fundo, já te prende.
E acreditas que viver é sempre avançar, provar, conquistar, quando às vezes viver é simplesmente repousar, escolher bem, recuar a tempo.

Escuta-me sem te defender.
Não sou teu inimigo. Sou parte tua, a parte que observa enquanto tu te perdes.

Tu persegues o excesso como se ele fosse salvação.
Mas já percebeste que o excesso te compra por pouco e te cobra caro?
Já notaste como muitos dos teus prazeres chegam como convidados e saem como invasores?

Não te peço que renuncies ao prazer.
Peço que o respeites.

Eu sei que em ti não há só pressa, há também sede de sentido. Sei que não corres apenas atrás do prazer, mas também do que é filosofia, e é por isso que te falo de Epicuro.

Epicuro, e digo isso não como citação, mas como aviso, sabia que o prazer não é o vilão. Vilão é o impulso desgovernado que te convence de que qualquer brilho é ouro, de que todo desejo justifica sua própria urgência.
O prazer sereno, aquele que sustenta, é simples: um gesto leve, um corpo sem dor, uma mente sem medo.
Tu o ignoras porque ele não faz barulho.
Mas é ele quem permanece quando tudo se cala.

Quero que saibas:
tu não precisas do “mais”.
Tu precisas do “bastante”.
E essa é a maior liberdade que existe.

Eu te escrevo porque, apesar de tudo, acredito em ti.
Acredito que podes aprender a escolher, não por repressão, mas por clareza.
Acredito que podes reconhecer a diferença entre aquilo que te ilumina e aquilo que te consome.

E se até agora ainda não pudeste dizer que escolheste o bem possível, que evitaste o que sabias ferir, que viveste com a leveza que teu espírito merecia, isso não é fracasso.

É apenas o ponto onde te escrevo.

Nem tudo foi medida, nem tudo foi claro, mas ainda há tempo para que seja.

O caminho não se fechou. O que ele exige não é pureza passada, mas lucidez presente.

Quero, enfim, te dizer sobre um Jardim,
não um de terra e muros, mas o que se cultiva por dentro:
aquele que Epicuro cultivou não como lugar, mas como ideia: um espaço de vida despojado, de liberdade interior, de prazer sem algemas.

Esse jardim não está fora de ti.
Ele começa no próximo gesto:
menos impelido, mais inteiro.

Era isso que eu precisava te dizer.

Com firmeza e afeto,

 

Teu eu sóbrio, que não quer te vencer,
quer apenas caminhar contigo, sem resistir um ao outro.

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 30/11/2025
Alterado em 30/11/2025
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