WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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A Anatomia da Saudade

 

Saudade é ausência que persiste, mas é também presença que ficou tatuada na carne da memória. Ela não é apenas a lembrança, mas o desejo contínuo de revivê-la. É como escrever com fogo invisível sobre a pele do tempo: o mundo continua girando, mas aquele instante que nos falta permanece imóvel, intacto, suspenso num plano onde o relógio não manda.

Clarice Lispector, em sua lucidez de poeta e abismo, disse que a saudade é como fome, e como toda fome, ela dilacera. Mas enquanto a fome se satisfaz com o pão, a saudade exige algo mais difícil: a alma de volta. Quer o cheiro, a textura, o olhar, o silêncio partilhado, o gesto simples repetido no cotidiano. Quer tudo. E mais: quer absorver o outro, dissolvê-lo em si, como se isso fosse possível matar a ausência.

Mas não é.

José de Alencar chamou-a de “doce tristeza”, e há nisso um paradoxo que só a saudade comporta: ela dói com elegância. É uma dor que não grita, mas ecoa. É uma lágrima que desce devagar, sem urgência, como quem sabe que tem toda a eternidade para chorar. Saudade é o único sofrimento que o ser humano acaricia. A gente embala a saudade, conversa com ela, dá-lhe nome, veste-a com lembranças, e a convida para o café.

Ela se senta conosco à mesa, todos os dias.

Mario Quintana, em sua sensível precisão, disse que a saudade faz as coisas pararem no tempo, e talvez esse seja seu maior milagre: transformar o efêmero em eterno. A saudade é o portal entre o que fomos e o que nunca mais seremos, e é por isso que ela pesa tanto. Carrega-se no peito como se fosse um relicário de tudo que já nos tocou profundamente, de tudo que o tempo quis levar, mas não conseguiu por completo.

Há saudades de pessoas, de vozes, de um beijo que nunca mais virá. Mas há também saudade do que fomos ao lado de alguém. E essa, talvez, seja a mais devastadora. Porque não sentimos falta só do outro: sentimos falta de nós mesmos, daquele "eu" que só existia quando o outro estava. Um riso que não se repete, um abraço que ninguém mais soube dar, um mundo que só fazia sentido porque era compartilhado.

A saudade nos humaniza. Ela revela que vivemos algo valioso, uma presença, um afeto, um instante que nos tocou com verdade. É sinal de que amamos, de que nos permitimos sentir profundamente. E amar, afinal, é o que dá sentido à saudade. Quem não ama, talvez não sinta falta. E quem não sente falta, talvez nunca tenha vivido plenamente o sagrado da existência compartilhada.

E há ainda um dom silencioso que a saudade carrega: ela tem o poder de apagar as arestas, os ruídos, as falhas. Quando sentimos saudade, é como se a memória escolhesse, com delicadeza, o que guardar. Ela nos devolve o outro em sua forma mais bonita, a risada espontânea, o gesto de cuidado, o momento em que tudo fazia sentido. Porque, no fundo, ninguém sente saudade da dor. Ninguém chora pelo que foi vazio. A saudade é seletiva: ela guarda o que foi luz, mesmo que entre sombras. Ela filtra o passado com os olhos do coração e eterniza apenas o que foi bom o suficiente para deixar falta.

Talvez, no fim, a saudade seja o preço que pagamos por tudo que foi imenso. Por tudo que foi verdade. Por tudo que ousou ser eterno num mundo feito de instantes.

E, mesmo assim, a gente segue: com a saudade de mãos dadas, ensinando-nos, dia após dia, a beleza de sentir, mesmo que doa.

 

Dedico esta prosa à saudade que habita em mim na forma do meu velho pai, presença constante nas ausências do dia, silêncio que fala, memória que abraça. E, com ela, também reverbero a saudade da minha preciosa mãe, que segue caminhando com coragem, tendo essa mesma saudade como eco de um passado vivido a dois, onde o amor moldava os dias. Que estas palavras, nascidas da falta e do afeto, alcancem outros corações que também cultivam ausências amorosas, a todos eles, ofereço esta prosa como homenagem serena e sincera.

 

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 02/12/2025
Alterado em 02/12/2025
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