WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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E porque errei…

 

E porque errei…
já não me olham nos olhos.
As portas não se abrem,
os rostos se viram,
as mãos que antes acolhiam agora empunham pedras.

 

Não foi por maldade, talvez por fraqueza, talvez por desespero…
mas errei.
E desde então, não sou mais pessoa,
não sou mais alma, nem alguém: sou o erro.

 

E aí veio a desgraça,
a humilhação sorrateira que se arrasta pelos cantos do dia,
a ofensa escarrada sem pudor,
a agressão travestida de justiça,
o riso de quem me viu cair,
não para estender a mão,
mas para se alimentar da minha ruína.

 

E por quê?
Qual o motivo único, o pecado original?
Porque errei.

 

E então eu pergunto, e que ecoem essas perguntas nos ossos de quem condena,
nos corredores dos tribunais,
nas salas das casas mornas,
nos púlpitos das igrejas,
nas praças onde se apedrejam nomes:

 

Quem erra… não tem olhos?
Não tem mãos, carne, sangue, memória?
Não ama? Não sonha?
Quem erra não sente o mesmo frio na pele?
Não se queima no mesmo sol?
Não treme de medo na mesma noite escura?

 

Quem erra não tem fome?
Não é vencido pelas mesmas doenças?
Não se cura com os mesmos remédios?
Não chora no travesseiro igual a quem nunca foi pego?

 

Se me cortarem, não sangro?
Se me fizerem cócegas, não sorrio?
Se me envenenarem, não morro?

 

Quem erra vira nada?
É isso o que mereço?
Nada?

 

O que fazer com quem erra?
Enterrar vivo?
Apagar da memória, da história, do nome?
Apontar, cuspir, rir, destruir?
Seriam os perfeitos tão perfeitos assim, que nunca tropeçaram em si mesmos?

 

Será que o erro de alguém anula toda a sua humanidade?
Ou revela justamente o quanto ainda é humano?

 

E se eu clamar por perdão, não há perdão?
E se eu não clamar…
não há um Deus que escute até o silêncio do arrependido?
Um Deus que não se junta à multidão que ergue pedras,
mas que sussurra baixinho aos corações endurecidos:
“quem já errou, que abandone a pedra.”
Um Deus que não aponta o dedo,
mas estende a mão.
Que não enxerga o erro como destino,
mas como passagem.
Que vê, no que todos chamam de fim,
o recomeço possível.

 

Quem somos nós os que erram ou os que se escondem atrás das pedras?

 

E se, por um instante apenas,
a vida trocasse os nossos lugares…
o que restaria de nós?

 

A minha dor de ter me tornado invisível me ensinou que,
se a vida trocasse os papéis,
eu não escolheria erguer pedras.
Eu escolheria enxergar.
Estender.
Ouvir.
Acolher.
E dar o perdão que eu tanto procurei,
mesmo sem saber ao certo como se recomeça,
mas com a certeza de que ninguém deve carregar, para sempre,
o peso das suas piores escolhas.

 

Esta prosa poética não fala de mim. E não busca justificar ou acolher o erro.

Ela nasceu da minha reflexão sobre quem, neste momento, se sente invisível porque errou e não sabe o que fazer, porque tudo ao redor parece dizer que não há mais lugar, nem retorno, nem esperança.

Confesso que me vi em alguns trechos…tanto lançando a pedra, quanto implorando para não ser atingido por ela.

Porque às vezes somos feridos. E às vezes somos quem fere. Mas, no fundo, o que todos pedimos, antes do juízo, antes da sentença, antes do fim, é apenas isso: ser visto com humanidade.

 

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 13/12/2025
Alterado em 14/12/2025
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