WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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A Sabedoria das Dúvidas

 

A dúvida não irrompe como tempestade. Ela chega como bruma. Delicada, tênue, pousa sobre as certezas como névoa sobre o vidro, e desfaz o que parecia límpido, abrindo espaço para o que ainda não se viu.

 

Não se trata aqui da dúvida que nasce da desconfiança, aquela que fere por dentro, que rói em silêncio e transforma o pensar em tormento. Essa pertence ao território das dores, onde o medo suplanta a razão. A dúvida de que se diz é outra, é aquela anunciada por Aristóteles como o princípio da sabedoria.

 

Essa dúvida é um sopro de consciência. Não fere, desperta. Não corrói, abre clareiras. Surge quando a mente pressente que há mais, e que o que se tem por certo pode ser apenas o contorno, jamais o centro.

 

Certezas são estátuas: confortam pela firmeza, mas estancam o movimento. A dúvida, ao contrário, é água corrente. Escava sentidos, contorna resistências, traça novos caminhos. Seu gesto primeiro é sempre o questionamento, não para destruir, mas para expandir.

 

Onde impera a certeza absoluta, o pensamento se cristaliza. Fecha-se em si, como pedra ao tempo. Já a dúvida, essa que inquieta sem ferir, mantém o pensamento vivo, em estado de germinação.

 

É da dúvida que brota o impulso pela descoberta. Ela respira entre os livros, caminha entre filósofos, germina na ciência, e sussurra nas artes. É o fermento das ideias, a centelha do novo, a fresta por onde entra a luz.

 

Quantos caminhos foram abertos porque alguém ousou duvidar? Quantas verdades aceitas sucumbiram diante de uma simples interrogação? A dúvida é o antídoto contra os muros do dogma, contra a tirania do “sempre foi assim”.

 

E se provoca desconforto, é porque há dentro dela uma promessa: a de que pensar pode ser mais do que repetir. Que saber não é possuir, mas aproximar-se. Que nenhuma verdade é tão sólida que não mereça ser reexaminada com olhos mais atentos.

 

Quando a presença da dúvida se insinua suave, mas persistente, não é sinal de fraqueza, mas de abertura. Pois duvidar é um ato de humildade diante da complexidade do mundo. É reconhecer que o saber absoluto é miragem, e que caminhar entre incertezas pode ser, paradoxalmente, o único solo firme da sabedoria.

 

Porque a dúvida não encerra, ela inaugura.
Não delimita, revela.
E, sobretudo, ensina que pensar é, acima de tudo, permitir-se recomeçar.

 

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 18/12/2025
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