WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
Capa Textos Fotos Perfil Livro de Visitas Links
Textos

O Preço de Deus e o Meu Preço

 

Nesta madrugada silenciosa, enquanto a cidade repousava em seus próprios sonhos, fui tomado por uma inquietação serena, dessas que só visitam quando tudo ao redor está quieto o bastante para que a alma fale. Buscando algum consolo ou talvez uma direção, deixei-me conduzir por palavras antigas, e me deparei com um sermão de Padre Antônio Vieira. Já o conhecia, mas naquela hora ele não foi apenas lido. Foi como se me atravessasse.

Logo nas primeiras linhas, fui desarmado por uma frase que parece ter sido escrita para mim, ou para todos nós, que nos debatemos entre o sagrado e o vão:
“A mim, a imagem dos meus pecados me comove muito mais que essa imagem do Cristo crucificado.”

Parei. Respirei devagar. Era um pensamento que já tinha me rondado, mas nunca com essa clareza cruel. Porque sim, diante da cruz, muitas vezes, me encho. Me exalto. Penso em como devo ser valioso, por ter sido comprado por sangue tão divino. Mas diante dos meus pecados... diante da facilidade com que me vendo por migalhas... ali, sim, eu me vejo como sou.

Vieira continua, com a precisão de quem não escreve apenas com tinta, mas com ferida: “Diante da imagem do Cristo crucificado eu sou levado a ensoberbecer-me por ver o preço pelo qual Deus me comprou. Diante da imagem dos meus pecados é que eu me apequeno por ver o preço pelo qual eu me vendi.”

E então ele arremata, sem piedade e sem exagero: ao perceber por quanto se vende, o homem descobre que não é muito, é nada. Nada vale aquele que troca o infinito pelos nadas do mundo.

E é aí que tudo muda. Porque compreender o Natal, esse tempo em que se fala tanto em nascimento, luz, esperança, exige também lembrar de quem somos. Lembrar do quanto fomos amados, mas também do quanto desprezamos esse amor em nossas trocas pequenas, em nossas vaidades baratas. É fácil inflar o peito diante da manjedoura e dizer: “vejam, Deus veio por mim”. Difícil é encarar o espelho e reconhecer: “e eu me afastei Dele por tão pouco”.

O Natal, no fundo, não é sobre presentes, ceias ou rituais repetidos. É sobre um Deus que se faz pequeno para nos buscar onde nos perdemos. Sobre um Rei que se despe da glória para nascer entre animais, na palha, longe dos palácios e dos holofotes. O infinito se deixa envolver por faixas, o Todo-Poderoso chora como um recém-nascido. E tudo isso para lembrar que o amor Dele não depende do que valemos, mas do quanto Ele nos quer de volta.

E eu, que fui comprado por sangue, tantas vezes me vendo por migalhas. Me vendo por orgulho, por um pouco de razão em discussões tolas, por um aplauso vazio, por um instante de vanglória que não dura até o fim do dia. Vieira me joga isso no rosto, e eu agradeço. Porque há verdades que só curam depois que ferem.

E nessas discussões vãs, onde queremos vencer com argumentos o que deveríamos calar com amor, o Cristo nos observa. Não com censura, mas com compaixão. Quando a vida nos pede empatia, a gente oferece opinião. Quando o outro precisa de um gesto, oferecemos uma certeza. Trocam-se afagos por frases duras, e renúncias por ego. Ele, que renunciou o Céu para estar entre nós, apenas espera que aprendamos a amar aqueles que estão ao nosso lado, e que quase sempre, são os primeiros a sentir nossas ausências. O Natal nos pede menos razão e mais presença. Menos defesa e mais entrega.

Não é na imagem imóvel do nascimento, nem na cena montada para contemplação, que Ele mais deseja nascer. Mas nos gestos que fazemos quando ninguém está vendo. Nos silêncios que escolhemos em lugar da ofensa. Nos perdões oferecidos sem que o outro peça.

E talvez o maior milagre do Natal não esteja apenas no fato histórico do nascimento de Cristo em Belém, mas na possibilidade de Ele tornar a nascer, agora, dentro de nós. Apesar de tudo o que fizemos. Apesar de tudo o que deixamos de ser.

Se, ao perceber por quanto me vendo, descubro que nada valho; e se, mesmo assim, Ele insiste em me comprar com todo o seu sangue, que outra coisa me resta, senão reconhecer minha pequenez? E, sendo nada sem Ele, com que direito ousaria desistir daquele que jamais desistiu de mim?

 

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 21/12/2025
Comentários