WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
A Alegria dos Apaixonados
"Nenhum homem possui verdadeiramente a alegria a menos que ele viva apaixonado." São Tomás de Aquino
Deparei-me com esse pensamento como quem se encontra com um espelho da alma: silencioso, mas revelador. Não apenas li, mas fui lido por ele. Em suas entrelinhas, vi minha própria natureza se delinear, essa condição inquieta de quem só sabe viver com o coração em brasa, em constante estado de encantamento.
Aquino, o doutor angélico, falava da paixão não como um desvario, mas como uma forma refinada de sabedoria, a sabedoria dos que se deixam mover por aquilo que transcende, por aquilo que eleva, por aquilo que, ao tocar a alma, a impele à sua mais alta forma: a sublimação.
Neste modo de pensar, sou um apaixonado.
Sou apaixonado pela minha Diva, cuja presença tem o dom de converter os gestos cotidianos em epifanias silenciosas. Com ela, o amor se transforma em casa, e o lar se transforma em um altar onde nossa pequena e sagrada família é celebrada diariamente, não com ouro ou incenso, mas com os afetos simples, com o riso partilhado e a ternura não dita.
Mas não só por ela e pelos nossos me inflamo.
Sou também um devoto da palavra. Um apaixonado pelas letras, ou melhor, pela reunião delas, esse milagre do verbo que constrói mundos, desfaz muros e reconcilia tempos. Quando se agrupam, as palavras tornam-se catedrais de sentido, instrumentos de transfiguração. Nelas, encontro o mesmo fervor que move o artista ao esculpir, o músico ao compor, o amante ao contemplar.
Essa paixão, que nasce da entrega e floresce na presença, tem nome: contemplação.
Contemplar é mais do que ver, é habitar o instante com olhos de eternidade. É fixar o olhar no outro, na amada, na palavra, na existência, e ali permanecer, não para dominar, mas para acolher. É permitir que o belo nos atravesse e nos transforme, como o fogo que não consome, mas purifica.
A paixão, assim entendida, é o mais alto exercício espiritual. Ela não destrói, como muitos temem. Ao contrário: ela organiza, eleva, lapida. E ao fim, quando tudo se acalma, é ela quem nos entrega à verdadeira alegria, aquela que não grita, mas respira. Aquela que não exige, mas transborda.
Aquino estava certo. Só é verdadeiramente alegre aquele que vive apaixonado.
E eu, por ela, pelos nossos, e pelas palavras que nos vestem, vivo.
Se isso não é tudo, então é quase.
E o quase, quando cheio de sentido, é uma forma luminosa de infinito.