WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
Eu, Passarinho
Há um tipo de resistência que não se anuncia.
Ela se constrói no silêncio dos dias, na escuta atenta, na recusa de se apressar só porque o mundo exige pressa.
Alguns veem nisso ausência de força, mas não enxergam o esforço discreto que é manter-se firme sem se tornar duro.
Eu não caminho para provar. Caminho para permanecer.
Muitos tentam atravancar meu percurso com urgências que não são minhas, com julgamentos vazios, fórmulas prontas, expectativas alheias, vozes que repetem verdades que nunca questionei, mas também nunca aceitei por completo.
E eu sei: eles passarão…
Eu, passarinho.
Foi Mario Quintana quem me ensinou que voar é, às vezes, mais firme que ficar. Que há grandeza em pairar sobre o tumulto, não por alienação, mas por lucidez.
Hoje, a mim, não interessa reconstruir reputações, esse teatro de expectativas que se desmonta ao menor sopro. O que me importa é produzir presença, consequência, sentido. Mais que ser lembrado, quero que o que faço seja sentido. Mas não a qualquer custo. Não às custas do que, com muito esforço e muitas perdas, me tornei.
Chegar até aqui teve preço.
E não troco esse caminho, lento e torto, por nenhum atalho que me leve a um lugar onde não caiba quem realmente sou.
Eles se empilham em certezas.
Eu me esvazio do excesso.
Eles se projetam.
Eu sigo, não acima, nem abaixo, mas como passarinho que sabe por onde voar sem se ferir nas grades nem se perder nas alturas.
E quando o caminho se estreita, eu me faço menor, não por submissão, mas por sabedoria.
Não me seduz mais a liberdade de poder tudo.
O que ainda me move, e enquanto mover, seguirei,
é a liberdade de fazer o que tem raiz no que acredito.
Aquilo que, mesmo quando tudo parecer ruir, ainda será digno de ter sido feito.
Enquanto isso me habitar, voo.
E se um dia isso em mim cessar, pousarei.
Mas não antes.