WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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Tempo de Florescer

 

Com a chegada de 2026, o tempo, esse velho operário de relógios calados, nos oferece mais uma porção: 31.536.000 segundos.

 

Estamos a poucas horas de receber esse crédito silencioso.
Não aparecerá no extrato bancário. Não terá senha.
Mas estará à disposição, depósito direto na conta da existência.
Eis o presente mais democrático e mais desigual do mundo:
todos o recebem, mas ninguém o utiliza da mesma forma.

 

Esse capital, porém, não admite poupança.
Não rende juros. Não aceita investimento especulativo.
Seu valor é inestimável, porque cada segundo é único,
e uma vez gasto, não há recompra possível.

 

Não há retorno, duplicata, parcelamento ou restituição.

 

Cada segundo consumido é uma moeda que desaparece no instante seguinte,
sem deixar saldo visível mas, paradoxalmente,
é desse gasto irreversível que nascem os verdadeiros dividendos:
a lembrança, a presença, o gesto, o encontro, o perdão, a escolha, o afeto.

 

E é aí que mora o milagre:
os dividendos do tempo não multiplicam o segundo que passou,
mas têm o poder de alargar o significado dele.
De fazer com que um instante dure para sempre em quem o viveu inteiro.

 

A cada doze meses, algo curioso acontece: fazemos uma pausa, olhamos para trás, refletimos sobre os caminhos trilhados, às vezes com cansaço, às vezes com orgulho. E então, como num pequeno milagre, voltamos a acreditar.

 

Com a virada do ano, ganhamos mais do que um novo número no calendário. Ganhamos também um novo fôlego, um impulso para recomeçar com mais vontade, mais aprendizado e, principalmente, mais esperança de que, daqui para frente, tudo pode ser diferente.

 

Esse pensamento, aliais, frequentemente atribuído a Carlos Drummond de Andrade, é na verdade do jornalista Roberto Pompeu de Toledo, que soube expressar com clareza esse ciclo tão humano de renovação e fé no futuro.

 

Recomeçar faz parte de quem somos. E o início de um novo ano é o lembrete perfeito disso.

 

Por isso, quando os primeiros segundos de 2026 soarem,
não se deixe capturar pela urgência.
Resista ao ímpeto de simplesmente preencher o tempo.
Antes, habite-o como quem pisa em solo sagrado.
Que cada segundo seja não apenas vivido,
mas reconhecido em sua inteireza
como se fosse o primeiro e o último sopro de eternidade.

 

Não o apresse, nem o desperdice.
Apenas esteja.
Com presença lúcida, com entrega serena,
com aquela ternura rara de quem sabe que o agora é irrepetível
e, por isso mesmo, digno de reverência.

 

Talvez 2026 não seja sobre conquistar territórios lá fora,
mas sobre cultivar paisagens aqui dentro,
reflorescer por dentro,
e finalmente perceber que viver não é acumular tempo,
mas escolher o que floresce nele.

 

Pois o tempo que passa não se repete,
mas o que foi vivido com alma jamais se perde.

 

Dedicatória
Aos que me ladeiam na jornada, com presença, escuta e afeto.
E aqui, em especial, aos escritores e leitores do Recanto das Letras,
onde a palavra floresce, se reconhece e eterniza.

 

 

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 31/12/2025
Alterado em 31/12/2025
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