WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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O silêncio entre dois anos

 

Neste exato instante, quando o ponteiro hesita entre o fim de 2025 e o início de 2026, encontro-me em um raro momento de contemplação. É como se o tempo, por um breve suspiro, me convidasse a olhar para além dos números, para dentro.

 

Não ouço apenas fogos, risos ou promessas lançadas ao vento. Ouço o silêncio entre os segundos. A pausa entre o que fui e o que serei. Sinto que, apesar do novo ano que se anuncia, o tempo permanece o mesmo, eterno e fugaz. Tudo mudou. Nada mudou.

 

Lembro-me da resposta de Galileu: “Tenho os anos que me restam, porque os já vividos não os tenho mais.” E compreendo, com certa melancolia serena, que o tempo vivido é um eco na memória, belo, mas intocável. Os dias passados são como folhas caídas de uma árvore antiga: serviram ao seu ciclo, alimentaram a raiz, mas já não voltam aos galhos.

 

Contudo, há algo de profundamente humano nesta contagem simbólica de anos. Quando o calendário vira, não é o tempo que muda, somos nós que desejamos mudar. E isso é bonito. É esperançoso.

 

Não nego as dores que carrego, os fracassos, os sonhos que ficaram pelo caminho. Mas também não deixo de enxergar a potência silenciosa do que ainda pode ser. Cada novo ano é uma página em branco que não começa do zero, mas sim com o peso leve de tudo que já aprendemos.

 

E assim, enquanto o mundo brinda, eu apenas respiro. Agradeço o que foi, recebo o que vem, e sigo, não contando os anos que vivi, mas escolhendo viver os que ainda me pertencem.

 

Porque o tempo, esse velho sábio, não se mede em calendários, mas em presença.

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 31/12/2025
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