WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
A Segunda Vida
Dizem que todos nós temos duas vidas.
A primeira se arrasta entre os dias como um rio sem foz. Vive-se dentro dela como se a vida fosse um rascunho eterno, uma promessa adiada, um jogo de tentativas onde perder tempo parece natural. Fazem-se planos longos para um tempo que talvez nunca chegue, enquanto se ignora o tempo que já está escorrendo. Alimenta-se, com fé quase ingênua, a ilusão de que a vida espera.
Na primeira vida, habitam-se papéis. Seguem-se rotas conhecidas. Aceitam-se amores mornos e palavras inacabadas. As horas passam sem deixar marcas. É o tempo do adormecimento existencial, da sobrevivência confortável, do adiamento silencioso de si.
Mas há um momento raro, precioso, em que algo se rompe. Um ponto de virada em que o peso da própria ausência se torna insuportável. E a consciência desperta.
É nesse limiar entre o velho e o novo que surge o chamado.
O professor e poeta Fernando Teixeira de Andrade, em sua obra “É tempo de travessia”, exprime com clareza este instante: “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”
Esse é o ponto exato em que a segunda vida pode começar: quando se compreende, não apenas como pensamento, mas como verdade encarnada, que só se tem uma vida, esta. Quando a finitude deixa de ser conceito e passa a ser experiência. Quando o tempo se revela breve e, por isso, sagrado.
A segunda vida não é um renascimento cronológico, mas existencial. Não começa com um novo calendário, mas com um novo olhar. É feita da escolha de estar, de sentir, de ser inteiro. Exige desapego das versões antigas de si, das máscaras herdadas, das repetições vazias. Exige coragem. E presença.
Na segunda vida, cada gesto adquire peso. Cada encontro é valor. O tempo já não se perde, porque já não se desperdiça o que se reconhece como finito.
Mas nem todos despertam.
Há os que permanecem à margem, presos às roupas que os definem, aos caminhos que os limitam, às certezas que os imobilizam. Vivem sem habitar-se. Seguem sem perguntar por quê. Passam pela vida como figurantes da própria história.
A verdade é dura, mas libertadora: não haverá outra vida. Não com este corpo, este tempo, esta consciência.
Aos que creem na reencarnação, há a esperança do retorno. Mas crê-se que, mesmo que a alma volte, será em outro tempo, com outra história, sob outra forma. Esta vida, tal como é agora, com suas dores e encantos, com seus encontros e escolhas é, mesmo para os que esperam outras existências, uma travessia única. O que não for vivido aqui, não será revivido do mesmo modo.
E aos que creem na vida eterna, na promessa de um céu, de uma morada definitiva após a morte, também sabem, em sua fé, que a eternidade não recomeça a vida: consagra o que foi vivido. A vida eterna não é continuação, mas consequência. Não devolve o tempo. Não corrige o que foi negligenciado.
A existência terrena é o tempo da semente, da decisão, do caminho. É aqui que se ama, se escolhe, se perdoa, se transforma. Depois, vem o repouso ou o juízo.
Por isso, esta vida, esta que pulsa agora, é singular.
É irrepetível.
É insubstituível.
E por isso, a segunda vida não é outra, é esta mesma, enfim desperta. É o mesmo tempo, mas olhado com reverência. É o mesmo corpo, mas habitado com alma inteira. É o agora elevado à condição de milagre. Quando chega o instante da consciência, esse em que se enxerga o real valor do tempo, o fim invisível de todas as coisas, já não há o que esperar. Porque a espera é uma forma lenta de se perder.
E foi pensando nisso que me encontrei nesta madrugada de sexta para sábado, quando tudo era silêncio, menos o pensamento. A cidade dormia, mas algo dentro de mim despertava. A solidão das horas fundas revelou, sem alarde, aquilo que é simples demais para ser notado durante o dia: que viver é um ato sem ensaio. Que a linha que se traça, permanece. E que a vida, esta vida, ainda que já tenha sido em parte desperdiçada, ainda está aqui.
Como teria dito Millôr Fernandes, com sua sabedoria leve e irônica, “viver é desenhar sem borracha.”
E talvez, descobrir isso tarde ainda seja cedo enquanto se está vivo.