WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
A Água de Dentro
Tenho medo do mar.
Não do azul que dança sob o sol, nem das ondas que beijam a areia em doce vaivém, mas do que não se vê. Do que mora abaixo da superfície, onde a luz hesita e o silêncio pesa como um segredo antigo.
É um temor feito de abismos, de não saber nadar quando as águas me chamam para dentro de si.
Depois de seis décadas, a gente aprende que nem tudo se aprende.
Que há gestos que já não cabem no corpo, e mergulhos que o tempo torna mais difíceis.
O corpo se faz cais, firme, mas sem vontade de partir.
E ainda assim, não é o oceano lá fora que me assusta mais.
É a água de dentro.
Porque o que afunda o barco não é o mar inteiro,
é o que se infiltra.
É aquela gota que ignoramos,
o acúmulo sutil das mágoas caladas,
a tristeza guardada para depois,
as palavras engolidas como âncoras.
A embarcação da vida não cede ao peso das tormentas externas, mas ao silêncio que goteja no porão da alma.
É o que deixamos entrar e não sabemos mais tirar.
É o ressentimento que encharca os sonhos.
É o medo que faz ninho sob as tábuas do peito.
Depois de tanto tempo, entendo:
Navegar não é sobre vencer o mar,
mas sobre manter-se inteiro por dentro.
Manter o casco selado, a alma leve,
os olhos atentos às fissuras pequenas,
porque a inundação começa numa fresta.
Talvez eu nunca aprenda a nadar nas águas de fora.
Mas posso aprender a esvaziar o barco,
a reconhecer quando estou me afogando
sem que ninguém perceba.
E nessa jornada que não exige velas,
o mais importante não é a direção do vento,
é o que carrego comigo.
Porque o que afunda o barco...
é sempre a água de dentro.