WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
A Página que o Outro Escreve
Hoje me deparei com essa frase atribuída a Santo Agostinho, filósofo e teólogo do século IV, mestre das inquietações da alma: “O mundo é um livro, e quem fica sentado em casa lê somente uma página.”
Não sei o que queria dizer Agostinho, mas hoje, ao menos hoje, pra mim,
ficar “sentado em casa” não é não sair à rua...
é não sair de si.
É não se aventurar para além das paredes internas, da mobília emocional onde nos acomodamos.
É morar apenas nos próprios pensamentos, sem abrir janelas para o que vibra lá fora, e tão perto.
Porque a casa, às vezes, somos nós.
Fechados.
Trancados com medo de sentir o mundo no outro.
Não pensei em aeroportos, nem em carimbos no passaporte.
Pensei nas histórias que vivem ao nosso lado, nas vidas inteiras que atravessam nosso cotidiano com a sutileza de uma página virando ao vento.
Nos dramas silenciosos daqueles que cruzam nossos dias, nas esperanças de quem passa por nós quase sem ser notado, na poesia escondida em presenças discretas que seguem seu caminho sem fazer alarde.
Pensei nas dores que não são minhas, e nas alegrias que ressoam como se também fossem minhas, se eu me dispuser a enxergar.
Quem se contenta em viver só a própria narrativa lê o prefácio da existência, e mais nada.
Ignora que cada pessoa é um capítulo raro,
que cada troca humana carrega perguntas e respostas que a vida sozinha jamais nos dará.
Porque há sabedoria no olhar de quem carrega cicatrizes.
Há beleza no desabafo tímido de quem achava que ninguém ouviria.
E há filosofia no gesto simples de alguém que, mesmo cansado, escolhe sorrir.
Ficar “sentado em casa” é seguir no rascunho.
É temer mergulhar nas entrelinhas da dor alheia,
é ignorar que existe pensamento no pranto,
e que há verdade em cada pequena conquista que o outro carrega no bolso como quem esconde uma pedra preciosa.
Por isso, hoje, faço uma oração íntima:
que eu não me resigne à leitura rasa,
que eu não me feche em capítulos conhecidos,
que eu me permita ser atravessado por histórias que não são minhas, mas que me tornam mais humano ao serem lidas.
Porque só assim, quem sabe,
eu consiga ler muitas outras páginas da existência.