WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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Enquanto Eu Não Chegava...

 

Hoje, num sábado que transcorreu entre táxis, aviões e aeroportos, esse intervalo suspenso em que o tempo parece não pertencer a lugar algum, deparei-me com uma frase já lida em outras ocasiões, mas que, por alguma razão, hoje capturou minha atenção com mais força:

“Se um dia o passado lhe procurar, lembre-se: você não está mais lá.”

 

Não sei quem a escreveu, ao menos para mim, permanece sem autor conhecido, e penso que justamente por isso tenha o peso das coisas que se tornam coletivas. Li essa frase no meio do deslocamento entre uma semana de trabalho e um fim de semana de repouso. Talvez tenha sido esse o motivo de ela ter me tocado: estava imerso nesse tipo de trânsito em que as partidas não se despedem e as chegadas não anunciam nada. Porque não se trata de recomeços ou finais, apenas de um intervalo.

 

Mas a frase permaneceu. E com ela, a constatação: não se está mais lá.

 

O passado costuma se impor. Às vezes com sua face sombria, lembranças que ainda nos ferem, gestos que gostaríamos de ter contido, silêncios que nunca deviam ter acontecido. Outras vezes, vem como consolo: memórias que nos aquecem, reencontros internos com afetos legítimos, o brilho de instantes que guardamos como quem protege o que é raro. Mas há, ainda, um terceiro tipo de passado, o mais perigoso, talvez: aquele que nos envaidece. A lembrança dos feitos que julgamos grandes, das conquistas que inflaram nosso nome, das certezas com as quais nos erguemos. Esse passado, que se apresenta como glória, muitas vezes é equívoco disfarçado de verdade. Ele nos seduz com a ilusão de permanência, quando tudo em nós já seguiu adiante.

 

Ainda assim, não é incomum esquecer: não estamos mais lá.

 

O tempo não nos consulta. Ele opera. Passa, rearranja, muda os contornos das coisas. E o presente, quase sempre negligenciado, é onde a realidade pulsa com mais densidade.
Não há retorno ao que já foi, o que há é a consciência de estarmos aqui, mesmo que entre ruínas internas, mesmo que entre reconstruções lentas. O presente não precisa de heroísmo, precisa de presença.

 

Há quem espere por grandes reordenações interiores, por momentos de clareza definitiva mas, quase sempre, é a permanência do fôlego que nos reconcilia com a vida. A simples abertura dos olhos, a continuidade dos gestos, a repetição que não é prisão, mas condição da existência. E, nisso, há potência. Não como promessa de transformação súbita, mas como realidade contínua: o que ainda podemos ser.

 

Enquanto a paisagem do voo diminuía cidades e tornava irrelevante a escala dos nossos dramas, pensei que talvez seja este o ponto: já não estamos contidos nas molduras que nos definiram. Já não somos as mesmas respostas. Já não pertencemos ao que nos prendeu, nem mesmo ao que nos engrandeceu.

 

O passado pode insistir, como fazem os ecos. Mas há um ponto do tempo onde ele não alcança: este instante sem nome, onde a vida ainda não foi decidida por completo.

 

E isso não é esperança.

É fato.

 

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 07/02/2026
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