WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
O Abismo Silencioso da Estupidez Organizada
Ao final de um dia ordinário, feito de palavras soltas, semblantes vazios, pressas sem direção e convicções gritadas sem reflexão, deparo-me com uma frase de Dietrich Bonhoeffer, teólogo alemão que enfrentou o nazismo com coragem e pensamento, que me toma de sobressalto: "Contra a estupidez, somos praticamente indefesos."
Não pretendo interpretá-la como verdade universal. Mas, no íntimo da minha leitura, vejo ali algo mais profundo do que a simples crítica à ignorância comum. O que entendo, ou idealizo, talvez, é que Bonhoeffer apontava para uma estupidez de outra ordem: aquela que floresce quando o ser humano abre mão de sua consciência crítica, entregando-se ao conforto das massas, da ideologia ou da autoridade endeusada.
Não falo da ignorância que se resolve com estudo, escuta ou boa vontade. Refiro-me à estupidez socialmente articulada, que não reside na falta de saber, mas na renúncia da responsabilidade de pensar por si. A estupidez de quem troca a dúvida honesta pela certeza que o grupo oferece, embalada em hinos, palavras de ordem ou doutrinas fáceis.
Na minha leitura, estúpido é o que se rende.
Não à razão alheia, mas ao ruído da maioria.
Não ao argumento, mas ao slogan.
Não à escuta, mas à reprodução acrítica do que "todo mundo diz".
Essa estupidez, que imagino ser a que Bonhoeffer combateu com a vida e a morte, não escolhe classe, instrução ou posição. Ela habita tanto o humilde quanto o douto, o governado e o governante. Manifesta-se no conformismo elegante, na passividade mascarada de prudência, e, sobretudo, na recusa de enxergar quando ver exige coragem.
Contra isso, sim, me sinto quase indefeso.
Porque essa estupidez repele o diálogo, não por malícia, mas por fé cega.
Ela veste-se de moral, mas é alheia à ética.
Aplaude quem grita, desde que o grito soe firme.
Idealizo, então, que Bonhoeffer tenha nos deixado um alerta, mais do que um diagnóstico. Um espelho, mais do que um veredito. Um chamado à lucidez, mesmo quando ela custa o pertencimento.
Porque ainda há os que veem.
Ainda há os que recusam a sedução da unanimidade.
Ainda há os que optam por pensar, mesmo que em solidão.
Se minha leitura estiver certa, ou ao menos útil, resta-me resistir.
Resistir à facilidade das respostas prontas.
Resistir ao torpor da coletividade acrítica.
Resistir à tentação de calar, quando o silêncio nos torna cúmplices.
Não tenho certezas. Apenas a inquietação de quem deseja não ser mais um no coro da estupidez.
Por respeito, ou talvez por uma forma de comiseração que preserva a dignidade do outro, não me refiro agora a alguém específico que encontrei no dia de hoje, muito embora me lembre de alguns rostos...
E porque é impossível não ver nesses rostos a repetição de um padrão, encerro meu dia com a sensação de que amanhã, novas caras, novas ações, me dirão, mais uma vez, que Bonhoeffer está sempre ecoando com a constatação de que:
"Contra a estupidez, somos praticamente indefesos."