WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
A Intuição como Caminho
Nessa manhã dominical, uma frase de Guimarães Rosa reverberou em mim:
“Eu quase que nada sei. Mas desconfio de muita coisa.”
Quase nada sei.
E talvez aí comece o saber.
Quem afirma saber demais já se fechou. Endureceu por dentro. Transformou o mundo em gavetas etiquetadas, onde cada coisa tem nome fixo e destino previsível. Mas quem quase nada sabe permanece aberto, como estrada de terra depois da chuva, recebendo pegadas novas.
O “quase” é humildade.
É reconhecimento da própria limitação.
É o abandono da arrogância do definitivo.
Mas vem a segunda parte, e é nela que mora o assombro:
“Desconfio de muita coisa.”
Desconfiar não é negar.
Desconfiar é pressentir.
É perceber que por trás da aparência mora um mistério.
A desconfiança rosiana não é cética no sentido frio; é intuitiva no sentido profundo. É aquele saber que não passa pelos livros, mas atravessa o peito. Não é a prova, é o pressentimento. Não é a certeza racional, é a intuição que sussurra antes mesmo que a lógica acorde.
Quase nada sei, porque o mundo é maior do que minha razão.
Desconfio de muita coisa, porque, mesmo sem saber, intuo.
Há sabedoria nisso: reconhecer a ignorância e, ainda assim, manter o espírito atento. É uma filosofia da inquietação. Não é o saber enciclopédico, mas o saber sensível. Não é a certeza, mas a consciência do enigma.
Talvez a frase nos ensine que maturidade não é acumular respostas, e sim cultivar perguntas.
Que viver é caminhar com lanternas pequenas em noites vastas.
Que entender demais pode ser ilusão, mas desconfiar é permanecer acordado.
No fim, quem quase nada sabe pode estar mais perto da verdade do que quem afirma dominá-la. Porque o mistério não se conquista, se atravessa.
E talvez o maior saber seja este:
saber que não se sabe,
e ainda assim continuar.