WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
Ecos do que Não Foi Resolvido
Lendo “Além do Princípio do Prazer”, do Freud, uma constatação ficou ecoando em mim como um sino discreto que não para de tocar: há repetições que não nascem do gosto pela dor, mas de algo mais subterrâneo, uma insistência do inconsciente em refazer a cena, como quem volta ao mesmo ponto do caminho porque acredita, íntima e teimosamente, que desta vez encontrará outra saída.
Freud observa esse movimento quando descreve a compulsão à repetição: em vez de buscarmos apenas o prazer e evitarmos o desprazer, há algo em nós que retorna ao que feriu, como se o trauma quisesse ser reescrito, como se a vida pedisse uma segunda chance onde antes só houve interrupção.
E eu confesso: isso me atingiu com uma precisão incômoda. Porque, depois dessa leitura, comecei a olhar para mim como quem acende uma luz num cômodo antigo. Percebi quantas vezes eu chamei de “destino” aquilo que era, talvez, um roteiro repetido com figurinos diferentes. E quantas vezes eu acreditei que era escolha, quando era uma espécie de imã invisível, puxando, de novo, para pessoas e situações que tinham o mesmo cheiro: promessa no início, vertigem no meio, e um desfecho conhecido, como um refrão.
Algumas pessoas passam pela nossa vida e deixam marcas que não são só lembranças: deixam moldes. E, sem perceber, a gente vai encaixando novos rostos nesses moldes, como se o coração estivesse tentando provar algo, como se dissesse: “agora vai”. Muda-se o nome, muda-se o contexto, muda-se a cidade, muda-se o horário do encontro, mas lá no fundo a cena parece a mesma, porque o que se repete não é o evento: é a ferida pedindo tradução.
Há repetição naquilo que a gente tolera.
Há repetição naquilo que a gente perdoa rápido demais.
Há repetição naquilo que a gente chama de “intensidade”, quando, na verdade, é ansiedade antiga vestida de novidade.
E é estranho, porque não parece uma busca pela dor; parece uma busca por conserto. Como se dentro da gente existisse um editor cansado tentando montar uma versão alternativa do passado: “se eu fizer diferente desta vez… se eu amar melhor… se eu for mais calmo… se eu for mais útil… se eu for menos eu… então talvez eu finalmente consiga um final que não machuque.”
A compulsão à repetição tem esse ar de tentativa. É quase comovente: um esforço involuntário de dominar aquilo que um dia nos dominou. Só que, enquanto tentamos “vencer” a história repetindo a história, a vida vai ficando parecida com uma sala onde a porta muda de lugar, mas a gente continua abrindo a mesma parede.
E então eu pensei nas pessoas que passaram por mim. Algumas foram espelhos, mostraram partes minhas que eu não sabia nomear. Outras foram labirintos, eu entrei querendo chegar a um lugar bom, e saí carregando de novo a mesma pergunta. E houve aquelas que foram como um retorno disfarçado: não eram o passado, mas tinham as mesmas chaves. E eu, sem notar, entregava as mesmas portas.
Mas existe um ponto, e talvez seja aqui que mora a delicadeza, em que a repetição começa a perder força quando a gente troca o palco: quando sai do “viver de novo” e vai para o elaborar. Porque o inconsciente repete enquanto não encontra palavras; repete enquanto não encontra um olhar que aguente ver; repete enquanto a gente ainda confunde familiaridade com amor.
O escape, para mim, começa assim:
Não é “parar de repetir” por força bruta.
É reconhecer o padrão com honestidade e ternura.
É fazer a pergunta que corta o encanto: “o que exatamente eu estou tentando resolver aqui?”
É notar o corpo, onde ele aperta, onde ele alerta, porque o corpo costuma saber antes da mente.
É permitir-se um intervalo entre o impulso e a resposta: um pequeno espaço onde nasce a liberdade.
E, sobretudo, é aceitar uma ideia que dá medo e alívio ao mesmo tempo: talvez eu não precise de um final diferente com os mesmos elementos. Talvez eu precise de uma história diferente.
Às vezes, o verdadeiro “final diferente” não acontece dentro do roteiro antigo.
Ele acontece quando eu escolho, pela primeira vez, não voltar ao mesmo lugar, não por falta de coragem, mas por finalmente ter aprendido que sobreviver não é repetir,
é crescer.